Gorender, em 1999: “Operariado é reformista”

Gorender, em 1999: "Operariado é reformista"

No Facebook, o assessor parlamentar Laurez Cerqueira, autor, como eu, de um perfil biográfico de Florestan Fernandes, prestou uma bela homenagem ao historiador Jacob Gorender, morto neste dia 11 de junho de 2013. Contou um “causo”, desses em que a circunstância expressa a personalidade do protagonista.

 

Gorender, fotografado por Antonio Gauderio, para a Folha de S.Paulo

 

Contou Laurez que, em agosto de 1991, por volta das quatro da tarde de um dia de sessão em Brasília, o telefone tocou no gabinete de Florestan. Era Gorender, direto de Moscou, falando do hotel que ele se hospedara para escrever um livro sobre a situação que a União Soviética. “Ele estava aflito, ofegante, bastante emocionado, queria falar com o professor Florestan de qualquer jeito. Eles eram muito amigos e companheiros de muitas lutas. Como Florestan estava no Plenário, ele então começou a falar comigo que canhões estavam na Praça, próximo do hotel, disparando contra o Parlamento russo. Dava para ouvir ao telefone os estrondos dos tiros.”

 

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Gorender não parava de falar, e lamentava não poder compartilhar e discutir o momento histórico que vendo acontecer com Florestan. “Pedi a ele que me desse o número do telefone do hotel, disse que eu iria ao Plenário chamar Florestan para ligar para ele. Ele concordou, chamei Florestan. Quando o deputado chegou ao gabinete, os tiros haviam cessado e eles falaram bastante.”

 

Ainda não conhecia Laurez, mas, alguns anos depois, encontrei-me com Gorender para entrevistá-lo, em sua casa numa vila do bairro da Pompeia, em São Paulo, sobre o livro Marxismo sem Utopia. Gorender falou comigo por umas duas horas. Antonio Gauderio, fotógrafo da Folha, fez umas belas imagens dele, quer, talvez, estejam no jornal amanhã. Foi uma longa conversa. Gauderio ficou impressionado com sua biblioteca; eu, com o armário de cozinha, que lembrava um da minha infância.

 

Samuel N09 traz dossiê sobre o legado polêmico de Hugo Chávez.

 

Não concordava com a premissa do livro, mas achei que Gorender tocou numa questão central para pensar o movimento operário, discutindo com autores internacionais e brasileiros.

 

Alguns meses depois, li seu ensaio A escravidão reabilitada, em que punha em xeque (pessoalmente, acho que não um xeque mate) os estudos recentes sobre escravidão, lembrando que sua obra-prima sobre o tema é o livro O escravismo colonial. Ainda que também tenha senões para este ensaio, a forma como ele recupera o noticiário recente (em 1988, o jornal Gazeta Mercantil fez uma reportagem sobre um forte boato que circulava entre os mais pobres, de que a Lei Áurea deixaria de vigorar cem anos após sua promulgação e que os descendentes de negros seriam reescravizados!) com a reflexão sobre a história e a historiografia da escravidão me impressionaram profundamente.

 

Em meu livro Florestan – A inteligência militante, cito um trecho de O Combate nas Trevas, sobre a experiência da luta armada, em que ele, apesar da formação stalinista, tece duras críticas a Jorge Amado, pelo tratamento injusto ao trotskista Hermínio Sacchetta no romance Os subterrâneos da liberdade.

 

Enfim, como se pode perceber, mesmo para um não-historiador e um não especialista nos principais assuntos que nortearam as pesquisas e reflexões de Gorender, ele foi uma leitura permanentemente intrigante.

 

Obras de Gorender na Livraria Opera Mundi.

 

Abaixo, vai republicada entrevista que Gorender me concedeu e que saiu no Folha de S. Paulo, a 11 de novembro de 1999.

 

Operariado é reformista, diz Gorender

 

“Na minha idade, não quero mais ser enganado nem enganar ninguém. Chega.” Aos 76 anos, o historiador marxista Jacob Gorender, ex-membro do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e do PCBR (“R” de Revolucionário), continua marxista, mas perdeu a ilusão na classe operária.

 

“O proletariado é ontologicamente (em si) reformista”, afirma Gorender no livro Marxismo sem Utopia, que lança hoje [em 1999]. Com essa posição, vai de encontro ao que pensavam Karl Marx e Friedrich Engels, pais do marxismo e autores do Manifesto Comunista e de O Capital.

 

Marx e Engels acreditavam que o proletariado era ontologicamente revolucionário. Significa que os operários travariam necessariamente uma luta pela expropriação dos meios de produção da burguesia.

 

Gorender acredita que a história do século 20 provou que Marx e Engels estavam errados — foram utópicos, apesar de buscarem eliminar a utopia da análise que faziam da sociedade capitalista. Para Gorender, os operários lutam para reformar o capitalismo e não para acabar com ele.

 

“Estou sendo coerente com Que Fazer, de Lênin (líder da Revolução Russa). Ele afirma que, deixado na sua evolução espontânea, o proletariado só atinge uma consciência sindical. Para ter uma consciência revolucionária, precisa da contribuição da ‘intelligentsia’. Lênin não concluiu, mas o que é uma classe que não chega à consciência revolucionária? Exatamente uma classe ontologicamente reformista”, diz Gorender.

 

Com isso, perde força, por exemplo, a categoria de “traidores”, que recaiu sobre a social-democracia alemã em 1914, quando esta apoiou a guerra. Quando não se idealiza a classe operária, é preciso reconhecer que ela apoiava a posição dos deputados.

 

Hoje, a tendência não só entre os marxistas, mas também de desenvolvimentistas e da social-democracia, é a da defesa da utopia como arma política. Um dos que adotam essa posição é o historiador britânico Eric Hobsbawn (A Era dos Extremos).

 

“Tenho em grande conta Hobsbawn como historiador. Num prefácio ao Manifesto, ele diz que a visão de Marx do proletariado como revolucionário não pode ser extraída logicamente de seu sistema, o que é verdade. Mas também Lester Thurow, um keynesiano, fala em utopia, para salvar o capitalismo. O filósofo Richard Rorty fala na necessidade utopia social-democrata, Jünger Habermas também defende uma utopia. Todos querem acreditar numa utopia”, diz Gorender.

 

Na opinião do brasileiro, que acredita “nadar contra a corrente dos intelectuais de esquerda”, defender um projeto utópico “é a força da fraqueza: não temos força, temos a utopia; quanto mais fracos, mais utópicos”.

 

Abaixo, trechos da entrevista do historiador Jacob Gorender, em 1999:

 

O sr. diz que a classe operária é, em si, reformista. Essa posição não é incomum, raro é o modo como o sr. a expressa.

Jacob Gorender: O que se dá é que Marx tomou como premissa o fato de ser o proletariado uma classe revolucionária. Isso está mais do que claro em sua obra. E os marxistas em geral, eu inclusive, aceitamos esse princípio. Hoje podemos observar isso com bastante clareza: o fato de ser explorada não é suficiente para que uma classe seja revolucionária. O proletariado é, sem dúvida, uma classe explorada, criadora do valor do qual se apropria a burguesia em uma parte. Ele é combativo como reformista, isso eu acentuo. Não obteve nada graciosamente da burguesia, mas não deixa, por isso, de ser reformista.

 

O sr. acha que os trabalhadores intelectuais assalariados podem assumir o papel de classe revolucionária. O que tornaria essa classe ontologicamente (em si) revolucionária?

Gorender: Eu não afirmo “ontologicamente”. Afirmo que eles podem assumir esse papel por dois fatores: primeiro porque é um setor assalariado que está crescendo; segundo porque ocupam não só as clássicas posições de formadores de opinião, mas também posições-chave no processo de produção. Considero que isso é discutível, mas é a procura de um novo sujeito.

 

Não tenderia a acontecer com esses trabalhadores o mesmo que o sr. diz acontecer com os políticos que representam a burguesia, ou seja, a aspiração à condição de burgueses?

Gorender: Uma série de alternativas é possível. Vejo uma repetição cada vez mais grave das crises do capitalismo, um aumento das desigualdades, uma situação que pode levar a uma radicalização de um grande conjunto de assalariados e em particular desses que têm, por suas condições, uma capacidade maior de percepção.

 

Esse grupo não teria de ser tão grande, numericamente, quanto o proletariado?

Gorender: Eu não coloco isso como condição “sine qua non”. Digo que já é uma classe-massa, já não é somente uma classe-elite. Ao que parece, esse segmento será cada vez maior, dependendo do avanço tecnológico, e pode ser que suplante o proletariado tradicional também em quantidade.

 

O sr. cita autores históricos, como Marx, Lênin, Trótski, mas também dialoga com brasileiros como Maria da Conceição Tavares, Fernando Haddad e Francisco de Oliveira.

Gorender: Eu valorizo os autores brasileiros. Considero que são nomes importantes, que têm uma contribuição e eu me manifesto a respeito dela. Não estou dizendo quem é mais importante, Robert Kurtz, Giovanni Arrighi, Paul Kennedy ou eles. Para mim, é indispensável falar a respeito deles.

 

O sr. é um marxista otimista. Acredita numa revolução ou reforma que leve ao socialismo. Não estaria aí repetindo o utopismo que critica em Marx?

Gorender: Pode ser que, no final, apesar de me empenhar numa filtração das idéias utópicas, eu próprio ainda seja utópico. Mas essa conclusão eu deixo para o “post-mortem”. Eu me empenhei em retirar do “corpus” marxista aquelas teses que são manifestamente utópicas. Algumas dizem respeito ao futuro, se o Estado vai desaparecer ou não. Eu penso que a história não termina com o capitalismo, mas quando ele vai sair de cena, eu evito. Além disso, incorporei de forma bastante clara o elemento da indeterminação, da incerteza, tal qual as ciências exatas modernas. Não é uma mera repetição de afirmações que Marx fez como ressalvas. Para mim, é um elemento novo no marxismo,fundado na experiência concreta do século 20.

 

Há dez anos caía o Muro de Berlim.

Gorender: Eu não me associo às comemorações da queda do muro. Não vou me associar a George Bush, a Helmut Kohl. Nunca vi o muro como algo louvável. Foi algo triste, lamentável, que bem representou o tipo de socialismo de certo modo até carcerário que existiu até 1991. A queda do muro pelo menos eliminou um fator de divisão.

 

O sr. vê o PT como um partido social-democrata e reformista. Assim, hoje ele representaria mais a classe operária?

Gorender: De certo modo, sim. Não digo isso como uma censura ao PT, que nasceu colado à classe operária e que não pode ser muito diferente do que representa. Ele entrou nos canais do reformismo da própria classe operária.

 

Os trabalhadores assalariados intelectuais não têm um partido organizado que defenda seus interesses.

Gorender: Eu creio que esses representantes já estão nos partidos que existem. Não espero que eles se organizem num partido isolado, podem atuar nos já existem, no PT, no Brasil, por exemplo. Eu não faço muita figuração a respeito desse segmento.

 

Isso tem um significado prático. É desistir de fazer do proletariado senhor da história.

Gorender: Não se trata de desistir, mas de abrir mão de um mito, de que o proletariado assumiria o papel de vanguarda. Essa expectativa não existe mais, isso é mais ou menos difundido no meio marxista, mas talvez não se tenham dito as coisas da maneira que eu digo. Agora podemos tomar as coisas com mais propriedade do ponto de vista concreto.

 

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