Três posts sobre livros: Kindle, crise das livrarias e a vida econômica do escritor

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Reúno aqui observações recentes sobre o mundo do livro

Estou há dias pra falar mal da Amazon.com e do Amazon Kindle.

Nunca fui fã do aparelho, mas admito que ele eh útil pra obras completas (bem mais leve) e pra ler à noite sem acordar a Joana.

Depois de 4 anos de uso, acabou a bateria (diria que de maneira bem suspeita, muito de repente). No Brasil, não dá pra comprar uma substituta.

Mas não é isso que eles dizem. Mandam vc entrar num link que não explica nada. Daí vc entra em contato pelo chat com eles.

Perguntam várias coisas. Até perguntarem há quantos anos vc tem o aparelho. “Quatro anos e meio, não podemos fazer nada, senhor.”

Daí te dão um crédito de 175 reais, o que significa que um novo kindle custa 300 reais. Mas tudo que eu queria era uma bateria, que substituísse a velha por 50 mangos. Porque meu aparelho antigo estava ótimo.

Esperei a black friday e economizei mais cem mangos. Mas sinceramente eu tô puto com a obsolescência programada e com os 200 paus que me garfaram, cobrando por algo que eu já tinha.

PS – a parte dramática da história é que estava acabando uma leitura sequencial dos romances do Machado. A bateria acabou quando faltava meio Memorial de Aires. Quando passar meu mau humor, retomo.

* * *

Tenho várias ressalvas à carta de Luiz Schwarcz que exorta as pessoas a darem livros no Natal. Fiz uns versinhos provocativos aqui, mas teve gente que escreveu seriamente ou muito irritada sobre ela. Nada contra presentear com livros. Não é esse o ponto.

Acho que a medida é inócua para ajudar as livrarias e editoras que vivem a crise mais radicalmente, e num certo sentido fetichiza as “marcas” que ignoraram todas as queixas, críticas e sugestões que poderiam ter minimizado a crise ou até a evitado. É de um romantismo, num certo sentido, ingênuo.

Esse é o copo meio vazio. O copo meio cheio é que a ideia traz consigo a possibilidade dos gestores públicos e dos leitores (e autores também) passarem a entender melhor o lado mercadoria do livro.

Só a consciência de que o livro é uma mercadoria – e uma mercadoria cheia de especificidades – vai permitir que a gente concretize políticas públicas que favoreçam de fato uma circulação maior e mais democrática dos livros no país.

Menos fetiche, fantasias e amores. Mais razão, debates e planejamento.

* * *

Postei, antes de dormir e acordar com insônia, uma foto com dois livros com textos meus editados ela Alameda. Um deles é um livrão, Machado de Assis Lido e Relido.

Nesse texto, publicado como posfácio do volume, eu discuto rapidamente a eficácia da aposta da intelectualidade brasileira em fazer de Machado um autor do cânone internacional. Termino provocando com a inversão da ideia de “nacional por subtração”, de Roberto Schwarz, dizendo que muitas vezes essa tentativa acaba por criar um Machado “internacional por subtração”. Ou seja, na tentativa de parear (justa ou injustamente, tanto faz no caso) Machado com grandes nomes da literatura mundial, muitas vezes se ignora o que há de nacional em seu texto, para, digamos, favorecer a tese.

Pois bem, acordo de madrugada e lembro disso, e imediatamente associei a brincadeira, novamente invertida, a uma citação muito frequente, que retomei novamente nesses dias, do Valentim Magalhães sobre o Aluísio Azevedo, que sintetiza muito bem o processo de subtração para nacionalizar um problema.

Valentim disse sobre Aluísio que ele foi o primeiro escritor a ganhar o pão com o que escrevia no Brasil, mas só o pão, porque as letras no Brasil ainda não davam para pagar a manteiga. O chiste foi publicado num texto de divulgação da literatura brasileira em Portugal, intitulado “A literatura brasileira (1870-1895)”.

Esse chiste, muito bom por sinal, se espalhou por toda a bibliografia sobre Aluísio. Mas ele sai sempre incompleto. Vou reproduzi-lo na íntegra aqui: “Aluísio Azevedo é no Brasil talvez o único escritor que ganha o pão exclusivamente à custa da sua pena, mas note-se que apenas ganha o pão: as letras no Brasil ainda não dão para a manteiga – como aqui também, creio eu”.

O “como aqui também, creio eu” raramente aparece nas citações. Sua ausência, no entanto, acaba produzindo o efeito de provar o “atraso” do sistema literário brasileiro.

Acontece que essa frase, a rigor, funciona para a quase totalidade dos escritores do planeta nessa época, inclusive na França, em que Balzac e Zola são exceções, não a regra.

Assim, o que é um lugar-comum dos escritores, uma reclamação aplicável quase que universalmente, é, com a subtração, convertido num estigma, uma marca da nacionalidade “atrasada”.

Ou seja, insônia é uma merda.