O pulo do gato do remake de “Rei Leão” da Disney

Fonte: Divulgação

Clássico de 1994 contava apenas com 3 vozes originais de atores não-brancos, nova versão do filme conta com maioria de vozes originais feitas por artistas negros importantíssimos

Semana passada a internet quebrou quando a Disney lançou o primeiro trailer do remake de “Rei Leão” que deve estrear em junho de 2019 nos cinemas. A quantidade de tweets, vídeos reagindo ao trailer e emotividade nas redes sociais por conta das imagens do Simba em animação 3D realista são incontáveis. Até por que, “Rei Leão” é um dos clássicos da Era da Renascença da Disney, a primeira versão levou 5 anos para ser finalizada e o universo iniciado pelo filme de 1994 povoa o imaginário de milhares de millenials, geração Y e afins. Quem nunca ouviu falar de Hakuna Matata, Timão, Pumba, Scar, Simba, a pedra do rei e tantas outras referências surgidas de “Rei Leão”?

Mas o que me motiva a escrever sobre esse remake não é a emoção de pensar algumas das minhas cenas favoritas do filme de 94 ou a angústia de ter que assistir Mufasa ser assassinado em animação 3D realista. Há uma característica desse remake que poucos estão comentando e eu acabei escrevendo rapidamente sobre em alguns tweets.  A animação de “Rei Leão” de 1994 contava apenas com 3 pessoas não-brancas fazendo vozes originais de personagens importantes para trama: James Earl Jones, Whoopi Goldebergh e Cheech Marin. Sendo que destes, apenas James Earl Jones fazia uma voz original da casta dos leões do filme.

A professora Imarisha Walidah já havia falado um pouco sobre a relação dos estereótipos racistas presentes em várias produções da Disney para o BitchMedia há alguns anos. Inclusive citando clássicos como “Dumbo”, outro que terá remake estreando em 2019, e “Rei Leão”.

Eu acho outra coisa importante de “O Rei Leão” é que este filme, como você disse, saiu em 1994. Esta é a era do fim do apartheid legal na África do Sul, [época em] que Nelson Mandela chegou em casa, que nós estamos vendo o desmantelamento do sistema legal do apartheid contra o qual as pessoas lutaram tanto, uma das formas mais brutais de segregação que o mundo já viu, e vamos ser claros, baseado na segregação americana. E é nesse momento que o mundo inteiro vem examinando a África do Sul desmantelando a segregação legal, que a Disney lança um filme cuja mensagem toda é “se você não segregar as pessoas ao seu devido lugar, então tudo será destruído.” (WALIDAH, Imarisha. The racial politics of Disney animals)

O filme de 1994 apresenta um gargalo racial grande entre leões e hienas. Um detalhe importante que Waidah salienta no podcast do BitchMedia é de que as hienas foram criadas como profundos estereótipos dos guetos negros e latinos existentes nos EUA, tanto que suas terras são parcas de comida, água e sinônimos de violência. Tudo o que a pedra do rei não era antes da ascensão de Scar. Essa diferença se simbolizava também nas características das vozes originais do filme de 1994. Todos as personagens que não eram hienas, com exceção de Mufasa, foram dubladas por pessoas brancas e essa é uma mudança que em todos os comentários sobre o remake de “Rei Leão” não tem sido salientada: as vozes originais do filme a ser lançado em 2019 serão feitas em sua maioria por pessoas não-brancas. Além de James Earl Jones repetir seu papel como Mufasa, teremos Beyoncé como a Nala adulta e Daniel Gloover como o Simba adulto. Olhando de forma seca a escalação, apenas Timão, Pumba e Zazu terão as vozes originais feitas por pessoas brancas. E isso não é algo aleatório por parte da Disney.

A era dos filmes da Renascença da Disney também serviram de respostas a críticas feitas a importantes filmes das eras de Ouro, Tempos de Guerra, Prata e Bronze da empresa. Fossem as críticas de que as princesas eram passivas, ou o repúdio que fez “A Canção do Sul” ser retirada dos catálogos da empresa, os filmes da Renascença da Disney apresentaram uma nova forma de pensar essas figuras, mas sempre mantendo as coisas nos mesmos lugares. As coisas mudavam muito, mas ao mesmo tempo permaneciam o mesmo formato de como tudo deveria ser, as princesas casadas, os leões reinando e as castas preservadas. É meio que um mecanismo da empresa, a cada era de suas animações é preciso responder as críticas feitas a outras eras de maneira positiva, mas que mantenha tudo em seu devido lugar. O maior exemplo disso são os filmes que vemos atualmente na era da Renovação que aprofundam as respostas às críticas feitas a todas as eras anteriores, mas no final das contas estabelecem um mesmo formato de manutenção de estruturas de poder e de castas.

O remake de “Rei Leão” vem no esteio destas respostas. Vamos lembrar que há intensa movimentação na industria do entretenimento estado-unidense nos últimos anos falando tanto sobre equidade salarial e violência contra mulheres, quanto a presença de negros em todas as fases de produções cinematográficas e em indicações para premiações. Me too, Time’s up, #OscarSoWhite e uma série de outras campanhas que falam da necessidade de haver diversidade e respeito a mulheres, negros, latinos e LGBTs. Não a toa Simba e Nala do remake de 2019 terão as vozes originais de Donald Gloover e Beyoncé, que são expoentes importantes das críticas feitas ao racismo estrutural existente nos EUA. Beyoncé lançou em 2016 o álbum “Lemonade” que foi considerado um marco na indústria musical por falar sobre as angustias da mulher negra, tanto que o nome do disco faz alusão a crença tida pelos escravos de que suco de limão poderia clarear a pele e os clips das músicas de “Lemonade” são quase todos ambientados em Nova Orleans, palco importante da resistência negra dos EUA assim como outras cidades dos estados do sul do país. Mais recentemente, a cantora e atriz escreveu carta para Nelson Mandela ao ir para África do Sul participar do Global Citizen Festival: Mandela 100 afirmando que usaria as lições aprendidas com Mandela para promover mudanças no mundo.

De outro lado teremos Donald Gloover como Simba. Donald estrela a série de comédia dramática “Atlanta” que fala do sonhos de dois jovens negros que sonham em ser rappers, a série já ganhou o Globo de Ouro e tem programada uma nova temporada para 2019. Porém, Gloover ficou muito conhecido para além dos EUA quando o clipe “This Is America” veiculado no Saturday Live Night viralizou. No vídeo, Gloover dá vida ao artista Childish Gambino e acaba ilustrando uma série de estereótipos veiculados pela mídia para reafirmar o racismo nos EUA, além de fazer duras críticas ao ultra-nacionalismo branco e ao terrorismo doméstico que ganha espaço cada vez mais nos EUA.

Donald e Beyoncé figuram entre os artistas negras que levam para suas produções mais atuais a dimensão do que é o racismo estrutural nos EUA. O remake de “Rei Leão” com um elenco predominantemente negro em 2019 vem logo após o discurso de Oprah Winfrey ao ser a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Cecil B. DeMille no Golden Globes deste ano. Não é a primeira produção do conglomerado Disney que começa a fazer a curva para assimilar não apenas a necessidade da representatividade em suas produções, inclusive sofrendo boicote de racistas em algumas obras como em Star Wars. Além das mudanças em Star Wars, também tivemos a estréia e sucesso do primeiro filme da Marvel protagonizado por um herói negro. Sim, a Disney está já fazendo a sua movimentação para responder a críticas histórias sobre sua relação com o debate racial e não começará com o remake do “Rei Leão”.

As perguntas para especular sobre esse remake não estão apenas circunscritas a quais cenas serão refeitas ou como serão encaixadas as músicas de Elton John com possíveis novas músicas para explorar o fato de Beyonce ser a Nala no filme. É necessário perguntar quais adaptações de diálogos e novas construções das personagens deveremos ver tendo uma mudança de elenco tão substancial? Será que o desfecho de segregação entre hienas e leões se manterá ou isso será contornado de uma outra forma? Qual será o escafandro utilizado pela gigante das animações para manter o imaginário de status quo que ela se esforça em manter a cada vez que precisa responder as críticas aos seus filmes? Algumas dessas perguntas já tem respostas prontas, outras apenas começaremos a responder em junho de 2019.

Que venha a pedra do rei povoada por negros e seu peso antirracista!