VOTO NULO AUXILIA CANDIDATURA TUCANA

como utilizar a urna eletrônica
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Alguns grupos, partidos e movimentos sociais, que se reivindicam à esquerda ou críticos do PT, estão chamando seus seguidores a anular o voto. Não é impossível que algumas dezenas ou centenas de milhares aceitem trilhar por esse caminho.

Não estou me referindo a todos os votos nulos. Muitos eleitores, por repulsa ao processo eleitoral, viram suas costas para todas as candidaturas e não querem conversa. O caso é com quem, a partir de um raciocínio progressista, está dizendo que tanto faz se ganhem os vermelhos ou os azuis.

Parte desse contingente votou, na primeira volta, para candidatos de PSOL, PSTU, PCB e PCO. Outra fração sufragou a ex-senadora Marina Silva. Também há os que anularam já no primeiro turno.

O que estes eleitores e os petistas têm em comum é o rechaço às forças de direita, encarnadas pela candidatura de Aécio Neves. Não há hipótese na qual aceitariam votar no PSDB.

A ruptura fundamental é que, para os nulo-sufragistas de esquerda, o PT também não presta. Representaria o mesmo programa e as mesmas alianças de classe que seus adversários, apenas diferindo cosmeticamente de uma política amigável às grandes corporações capitalistas.

A conta é simples. Se são eliminados estes votos, que poderiam ser atraídos pela alternativa mais à esquerda presente no segundo turno, o beneficiário direto é Aécio Neves. Ainda mais em uma corrida que provavelmente será decidida no olho eletrônico.

Muitos dos que têm essa opção, pressionados por quem lhes cobra responsabilidade política neste cenário delicado, gastam tempo e espaço para atacar o petismo de forma implacável, quase poupando o bloco conservador. Fácil de entender: precisam demonizar o partido de Lula e Dilma para sua posição parecer mais razoável até para si próprios.

O rancor, afinal, é dos melhores escudos contra a razão. Claro que existem motivos, reais ou imaginários, para descontentamentos com o PT. A questão, porém, é saber o que está em jogo. O voto nulo ajuda a ultrapassar o petismo pela esquerda ou favorece a vitória da direita?

O segundo turno, afinal, tem natureza positiva apenas para aqueles cujo candidato continua na cédula eletrônica. Os demais tendem a votar negativamente, para rejeitar o projeto que lhes pareça mais maléfico.

Ainda que se possa, em certas circunstâncias políticas e históricas, refutar as duas alternativas que seguem na peleja, seria necessário responder a algumas perguntas para não fazer o jogo dos piores inimigos.

A vitória tucana, com a queda do governo petista, cria ambiente mais favorável para a organização e a mobilização das forças do campo popular? Os sindicatos e movimentos sociais terão melhores condições de luta?

Não há diferença, para os trabalhadores da cidade e do campo, entre uma política gradualista, defensora de emprego, renda e direitos, e o novo choque neoliberal proposto pelo candidato do PSDB?

Será a mesma coisa um projeto que busca, mesmo timidamente, abrir caminho para a participação popular no interior do Estado oligárquico, e outro marcado pelo retrocesso patrimonialista e antidemocrático?

Para as experiências progressistas na América Latina e outras regiões do planeta, dá na mesma um governo empenhado na construção de espaços contra-hegemônicos ou uma administração realinhada a Casa Branca?

A abordagem de direitos humanos e civis, sob gestão petista ou tucana, é da mesma natureza?

Quem fizer estes e outros questionamentos, poderá refletir com seriedade se a guerra de classe movida contra o PT é truque de cena ou expressa a tensão entre projetos razoavelmente conflitantes.

Não se imagina que o voto em Dilma, vindo de setores críticos ao petismo, seja aval duradouro ao governo incumbente e eventualmente reeleito. Trata-se de saber, no entanto, se esses eleitores estão ou não dispostos a barrar o avanço da hipótese mais reacionária.

Apesar do exemplo de desprendimento das principais lideranças do PSOL, além de outras referências sociais, culturais e políticas, que declararam seu apoio à fórmula presidencial petista, há quem continue a fincar pé no diagnóstico de que são todos farinha do mesmo saco.

Mesmo sob o risco, ao votar nulo no dia 26, de estar objetivamente prestando auxílio ao candidato da direita.

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.