LUTA DE CLASSES DARÁ VITÓRIA A DILMA

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O que estamos assistindo na campanha presidencial, nos últimos dias, é a consolidação do voto, de lado a lado, a partir de interesses, realidades e valores próprios ao lugar que pertence cada eleitor na sociedade.

Esse movimento pode ser percebido nas ruas e é detectado pelas pesquisas eleitorais. Os trabalhadores, as camadas médias e os setores abastados estão cristalizando suas posições.

A candidatura petista, antes majoritária apenas entre os que possuem renda familiar de até dois salários mínimos e no Norte-Nordeste, já avança para ser favorita também entre os que recebem de 1,5 mil a 3,6 mil reais, além de lograr expressiva recuperação no Sudeste.

O candidato tucano caminha para ficar retido nos andares superiores da pirâmide, entre os que possuem renda acima de cinco salários mínimos. Ainda é favorito no Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste, mas corre o risco de terminar a peleja cercado na porção mais meridional do país e no eixo do agronegócio.

Esta inflexão começou há uma semana, quando o impacto dos resultados do dia 5 de outubro perdeu contundência.

A presidente e seu partido terminaram o primeiro turno aparentemente sitiados em sua fortaleza, entre os pobres da cidade e do campo.

Herdando a maior parte dos votos de Marina Silva, o postulante da direita ameaçava forjar aliança entre os setores mais ricos e as frações melhor remuneradas dos assalariados. Sinalizava que poderia seduzir o que certa literatura passou a chamar de nova classe média.

Esse cenário está sendo rompido. A campanha petista está a poucos passos de reconstruir um bloco popular suficientemente sólido para reeleger a atual governante e reduzir a influência hegemônica de seu adversário ao cantão da riqueza.

A conquista de maioria entres os dois grupos de renda inferior, além de atrair parcela expressiva no segmento entre 5 e 10 salários mínimos, concluirá a formação de uma frente classista imbatível.

O núcleo fundamental deste bloco é a coalizão entre os pobres, os trabalhadores formalizados e os extratos subalternos das camadas médias assalariadas.

Desde o dia 9 de outubro, segundo o Datafolha do dia 21, Dilma aumentou sua margem na faixa até dois salários mínimos de 15 para 19 pontos (de 52% a 37% para 53% a 34%).

Empatou entre as famílias com remuneração entre dois e cinco mínimos (de 42% a 49% para 45% iguais).

Reduziu a distância no agregado entre 5 e 10 salários de 25 para 17 pontos (de 33% a 58% para 37% a 54%).

Mesmo no recorte superior, acima de 10 mínimos, o fosso foi reduzido de 45 para 24 pontos (de 24% a 69% para 35% a 59%).

Projetos e interesses conflitantes

Esta tendência parece impulsionada por dois grandes vetores: a experiência prática dos setores proletários e o confronto programático-biográfico.

Pouco afeitos à disputa permanente de narrativas com a direita, acomodados diante do monopólio da comunicação, o PT e a presidente estão sabendo fazer da campanha eleitoral uma ferramenta para ativar a memória social e desvendar os interesses de classe contidos nos programas de seus adversários.

O gradualismo petista não alterou os fundamentos da economia e do poder político, mas mudou profundamente a vida de milhões a partir da fixação do combate à miséria como prioridade orçamentária e eixo para desenvolvimento de um potente mercado de massas. Não promoveu apenas ascensão social e do padrão de consumo, mas também a expansão de direitos antes impensáveis.

O modelo de inclusão social, através da geração de emprego e renda, transformou uma multidão de miseráveis em trabalhadores, tornando-os suscetíveis a uma identidade coletiva e ao reconhecimento do papel do Estado na melhoria de suas vidas.

Programas de moradia, educação e proteção social, além das políticas de cota e ampliação dos direitos trabalhistas para o trabalho doméstico, por exemplo, também ajudaram a construir condições materiais para uma nova consciência de classe, a despeito do baixíssimo empenho governamental ou partidário para estimulá-la fora dos períodos eleitorais.

A campanha petista tem sido altamente eficaz em reavivar a comparação deste presente, mesmo cheio de problemas e contradições, com o passado neoliberal. Forçou a conexão do candidato da direita, seu partido e aliados com o período histórico anterior, impedindo-os de surfar com a ideia de mudança em discurso descolado da trajetória concreta.

O fruto principal desta tática comparativa é solidificar a noção de que existem nós e eles. Os de baixo e os de cima. O povo e a elite. Os trabalhadores e os opulentos. Cada grupo com projetos e interesses conflitantes. Cada bloco com seu candidato.

A direita precisa fugir deste retrato da realidade como o diabo da cruz, para ter alguma ponte de diálogo com as camadas populacionais no pé da pirâmide, obviamente pouco acessíveis ao liberalismo se este não vem disfarçado de bem comum e montado em objetivos transversais.

A esquerda, ao contrário, só tem força se expõe na máxima intensidade o cenário das diferenças, pois disso depende para unificar e mobilizar as massas populares nas quais se enraíza.

De quebra, ao extremar a polarização, torna mais visíveis e escandalosos valores enraizados no conservadorismo: preconceito classista, xenofobia, racismo, autoritarismo, machismo, homofobia.

Choque programático e de biografias

Mas não é apenas o nexo passado-presente que tem permitido a arrancada de Dilma. Há também o choque programático e de biografias.

O PT, que já havia se saído vitorioso em desvendar a plataforma de Marina Silva, amigável ao capital financeiro, continuou a conduzir esse debate contra Aécio Neves.

Aos poucos, vai demonstrando que a mudança prometida pelo tucano é de natureza restauradora. Ao fazê-lo, impede que a fadiga mais progressista com o ciclo petista se desloque para a direita, recuperando apoio em segmentos descontentes.

O desnudamento dos malfeitos administrativos do ex-governador mineiro também colabora para vinculá-lo ao passado e à lógica oligárquica.

O mesmo se pode dizer de sua biografia e personalidade. Aécio Neves está passando a ser visto sem fantasias. Um legítimo representante da elite ociosa e plutocrática. Mal-educado, agressivo e prepotente como é próprio aos novos-ricos que herdaram o comando da sociedade escravocrata.

Por esses passos vai se construindo a vitória da presidente. Contra a alternativa reacionária, uma ampla e generosa frente de forças progressistas.

O motor dessa dinâmica? A boa e velha luta de classes.

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.