REINVENÇÃO DA DIREITA ANIMA POLÍTICA

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Não são poucos aqueles que tratam de classificar como doidivanas o atual comportamento da oposição conservadora.

O senador Aécio Neves e seus seguidores são vistos, por observadores de distintas origens, como se estivessem fora da casinha.

A trupe pode ser acusada de representar os mais reacionários interesses políticos e de classe. Também resplandece o caráter antidemocrático e adverso à soberania popular de suas aleivosias.

Mas não é um bando de loucos.

Animados pela forte polarização da campanha eleitoral, oposicionistas de barricada estão rasgando fantasias e disputando a sociedade com um discurso sem maquiagem.

Deram-se conta que parte importante do país, da qual brotam votos e apoios à coalizão política chefiada pelo PSDB, não deseja mais orbitar no campo de gravidade do centro político, cenário que se impôs desde a transição pactuada da ditadura para a democracia.

Este setor quer ver suas aspirações, ideias, valores e emoções defendidos sem rapapés. Constitui-se de frações políticas e sociais que estão desembarcando da normalização implícita aos regimes democráticos liberais.

Sua atitude passou a ter novos paradigmas, baseados em confrontação programática, ocupação de espaços públicos, tensão institucional e mobilização militante.

Relevantes meios de comunicação funcionam como banda de música desta dança conservadora, além de fornecer bardos e menestréis para o minueto.

São as vias de reinvenção da direita brasileira.

Mudança de equação

Obviamente este segmento sempre se manteve vivo e dinâmico, mas desde os anos noventa escondia-se sob as saias do discurso centrista, às vezes vestindo trajes íntimos de preocupação progressista.

Desmoralizado pela longa ditadura e a queda de Fernando Collor, o conservadorismo foi buscar na aliança com o PSDB, nas eleições de 1994, a reanimação da hegemonia burguesa sobre a sociedade e o Estado.

O reacionarismo converteu-se majoritariamente a um enredo modernizador, liderado por Fernando Henrique Cardoso, capaz de neutralizar atrativos de uma esquerda às voltas com o colapso do socialismo real.

Agora está mudando a equação.

Os doze anos de governos petistas, com programas que melhoraram amplamente as condições de vida e trabalho de milhões, criaram poderosa base de massas para a esquerda.

A desconstrução desta identidade, dos pobres da cidade e do campo com o petismo, passou a depender de crescente antagonismo, no afã de solapar a credibilidade e a confiança no projeto liderado por Lula.

Os liberais-democratas, que antes preferiam ser tratados como sociais-democratas, movem-se em direção à velha direita, para construir um bloco neoconservador, radicalizando a vida política do país.

Este é o fenômeno que estamos vivendo.

A direita resolveu bater lata, estabelecendo contraposição frontal ao gradualismo petista. Não apenas seus grupos extremistas, mas também frações expressivas de correntes moderadas e egressas da resistência à ditadura militar.

Há lógica nesta loucura, no entanto.

Nova estratégia

O congestionamento no meio-campo, se antes era funcional para deter a esquerda, pois diluía o programa neoliberal, vem perdendo vigor para essa tarefa.

De muitas maneiras, foi o petismo que passou a se beneficiar do pântano, tão característico da política nacional.

As reformas conduzidas por Lula e Dilma, sem a marca de mudanças estruturais, encontraram na baixa densidade político-ideológica um clima positivo e de menor resistência.

Os corvos resolveram apostar, porém, desde o desfecho das eleições presidenciais, em outra política.

Deslizaram para estratégia de ataque pela ponta, no limite flertando com o golpismo.

Imaginam, assim, ampliar a capacidade de estigmatizar a esquerda, pressionar centristas mais recalcitrantes e retirar o PT da zona de conforto.

O modelo guarda certas semelhanças com experiências internacionais, tais como o Tea Party nos Estados Unidos e a Frente Nacional francesa.

Mesmo minoritários e isolados, estes agrupamentos se converteram em polos dinâmicos, impondo agendas e forçando amplo deslocamento conservador ao longo do tempo, arrastando a correlação de forças para a direita.

Além da estagnação econômica e o pânico social, que servem como pano de fundo, o principal ativo desta orientação está na confrontação contra políticas que reforçam o Estado contra o mercado e o indivíduo, identificando-as como predadoras das camadas médias e das etnias nacionais hegemônicas.

Racismo, chauvinismo e moralismo são expressões condensadoras deste movimento.

As enormes concessões do Partido Socialista francês e do Partido Democrata norte-americano a esse ideário reacionário, tentando impedir a fuga do centro para a direita, também facilitam o enraizamento da narrativa neoconservadora, que não encontra contraposição à altura e pode usufruir de vantagens inerentes ao controle da iniciativa política.

Apesar das evidentes diferenças com a situação brasileira, o novo perfil da direita nativa não é alucinação de maus perdedores, ainda que numerosos de seus integrantes sejam alucinados e maus perdedores.

Há uma alteração estratégica em curso, que talvez devesse merecer reflexões urgentes entre os líderes petistas e de esquerda, antes que seja tarde para a ação.

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.