Quando Dilma irá acalmar a esquerda?

Dilma Rousseff
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Abundam analistas e protagonistas elogiando as escolhas da presidente para o ministério, as medidas anunciadas nas últimas semanas e o discurso que tem predominado desde a reeleição.

A ideia-força que atrai estes aplausos é a da pacificação. Seria lance político de brilhantismo um conjunto de concessões destinadas a desarmar o clima de enfrentamento da disputa presidencial.

O portfólio de providências inclui, entre outras iniciativas, aumentos seguidos da taxa de juros, nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, oficialização de ferrabrás do ruralismo para a Agricultura, abertura prevista de capital da Caixa Econômica Federal e crescimento dos agrupamentos centristas no novo gabinete, com esvaziamento relativo do PT.

Para muitos, tiro certeiro: estariam sendo criadas as condições de repactuação com as classes dominantes, refazendo alianças e isolando eventuais segmentos golpistas.

Vitoriosa em campanha mobilizada e de esquerda, defendendo programa de contraposição ao capital financeiro e seu modelo econômico, Dilma estaria obrigada a recuar para posições mais conservadoras, premida pelas demandas de governabilidade.

Seria impensável, nesta lógica, reconstituir maioria parlamentar sem diminuir a intensidade do debate político-ideológico e sem recolher as tropas que determinaram o triunfo eleitoral.

A favor deste raciocínio, há elementos de realidade.

Os partidos de esquerda não terão, no Congresso a ser empossado daqui a dois meses, mais do que um quinto das cadeiras. Na outra ponta, as legendas mais reacionárias ampliaram fortemente sua presença.

A base de apoio parlamentar está dividida e desorganizada. Porção relevante do centrismo, especialmente abrigada no PMDB, apoiou o PSDB nas eleições presidenciais e está decidida a fazer de Eduardo Cunha o novo presidente da Câmara dos Deputados, associada à oposição de direita.

Importantes veículos de comunicação apostam abertamente em transformar a investigação na Petrobrás em carro-chefe de operação que leve à paralisia e ao desgaste da presidente, se possível a seu impedimento.

As dificuldades da economia são marcadas pela retração de investimentos produtivos privados, em ambiente de aumento da renda financeira e enfraquecimento do Tesouro, minado pelo baixo crescimento e o serviço da dívida interna.

A leitura aparentemente predominante, em círculos governistas, é que estes e outros fatores seriam suficientes para recomendar uma estratégia-violino: venceu-se com a mão esquerda, mas para governar torna-se necessário tocar com a mão direita; acredita-se, em contrapartida, que os inimigos desistam de assaltar o instrumento confiado às forças progressistas pelo voto popular.

Na pior das hipóteses, ganharia-se tempo até os bons ventos da economia mundial voltarem a soprar, restaurando a hipótese de seguir adiante com as melhorias sociais sem radicalização do conflito distributivo.

Arrisco duas ordens distintas de problemas, nesta formulação.

A primeira reside em saber se é possível conciliar estas concessões, de magnitude ainda pouco clara, e mesmo que provisórias, com o processo iniciado em 2003, cujos fundamentos são a construção do Estado de bem-estar, a distribuição de renda e a consolidação do mercado interno de massas como força propulsora do desenvolvimento.

Se a resposta for negativa, cresceriam os riscos do petismo cair em cenário de paralisia ou retrocesso nas conquistas sociais. As consequências políticas, como não é difícil prever, poderiam ser dramáticas.

Vale lembrar que as poderosas realizações dos últimos doze anos foram incapazes de evitar que se criasse clima para manifestações de protesto, em junho de 2013, e de oferecer tranquilidade eleitoral no último pleito.

Caso a alternativa ao esgotamento do primeiro ciclo de reformas seja, mesmo moderadamente, na direção oposta das políticas até aqui praticadas, haveria notáveis possibilidades de esgarçamento da confiança no projeto encabeçado pelo PT.

A segunda ordem de obstáculos é ainda mais perigosa: e se o apaziguamento fracassa?

O núcleo duro das classes dominantes, afinal, já deixou bastante claro que as reformas de cunho orçamentário, que não alterem estruturas de poder e riqueza, são as fronteiras de sua tolerância natural. Para além disso, somente se oligarquias do capital forem subjugadas ou derrotadas.

No mais, a história está cheia de exemplos sobre como pode ser inócua e traiçoeira, em determinadas situações políticas, a prevalência da conciliação sobre o enfrentamento.

O Tratado de Munique, pelo qual França e Inglaterra entregaram os Sudetos tchecos a Hitler, em 1938, com o intuito de evitar a guerra que se aproximava, é um clássico entre estes casos. A besta nazista não se sentiu saciada, mas gulosa e à vontade para seguir na mesa.

O ex-presidente Getúlio Vargas também tem seu nome inscrito entre conciliações malogradas. Isolado no parlamento, compôs gabinete de centro-direita para neutralizar a oposição golpista. A manobra foi um retumbante fracasso. Perdeu apoio popular, ao aplicar parte do programa liberal de seus adversários, e viu-se no dever de entregar a vida, só assim reavivando o entusiasmo das ruas, para impedir a morte de seu projeto político.

Não estamos, ao menos à primeira vista, diante de perspectivas assim dramáticas.

Mas é inegável que forças de esquerda e movimentos sociais, com papel decisivo no segundo turno das eleições, estão perplexos e irritadiços com as decisões tomadas pela presidente.

Seria ilusão acreditar que se possa manter a simpatia deste lado da sociedade apenas com frases e informações alarmistas sobre a ameaça de tudo ficar pior, se a presidente não receber solidariedade incondicional diante da escalada conservadora.

Sem símbolos, discursos e gestos que concretizem compromisso com o aprofundamento das mudanças, como ocorreu na campanha eleitoral, não se devem subestimar as chances de desvinculação entre o governo e as frações mais ativas de sua base social.

O oficialismo deveria levar em conta que a orientação pós-eleitoral poderá ser, ao mesmo tempo, insuficiente para deter o bloco conservador e insuportável para o campo que lhe deu o triunfo em outubro.

Caso predomine sentimento de frustração e apatia nestes setores, que constituem a alma mater do petismo e da esquerda, quem estará ao lado do palácio nas horas difíceis que virão?

Que forças impediriam a direita de querer transformar a dieta de concessões em regime de capitulação?

Há forte expectativa, nestas circunstâncias, para o discurso de Dilma no próximo dia 1º de janeiro.

A pergunta que não pode calar: com qual mão ela carregará o arco do violino ao subir no parlatório de sua segunda posse e dali em diante?

 

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.