Por que Barack Obama pode?

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O presidente dos Estados Unidos não pertence a um partido de esquerda. Integra os quadros da burguesia negra e nunca se propôs a mudar o sistema político-econômico de seu país.

Ainda que tenha preservado a clássica política imperialista do Departamento de Estado, Obama é diuturnamente atacado pela direita republicana e boa parte dos principais veículos de imprensa.

Os mais conservadores acham que ele foi longe demais com suas limitadas reformas para reforçar a cobertura social do Estado aos mais pobres. Preferiam menos direitos e serviços, com cortes de tributos.

Os mais progressistas (ou liberais, no linguajar político norte-americano) sentem-se decepcionados pela timidez política do primeiro presidente negro. Acusam-no de atravessar o mandato tentando alguma composição com setores moderados da oposição e do establishment, abrindo mão do programa e das esperanças que o levaram ao triunfo em 2008.

Ensanduichado entre a fúria reacionária e o desânimo liberal, Obama perdeu maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado.

Depois da tunda parlamentar, em novembro do ano passado, tratou de buscar outro rumo.

Claro que não alterou os marcos principais da política internacional, através da qual a Casa Branca protege sua supremacia sobre países e regiões, denominador comum entre democratas e republicanos.

Mas lançou medidas que respondem às expectativas de seus eleitores, especialmente entre os trabalhadores, as frações mais pobres de negros e latinos, as camadas médias assalariadas e os setores empresariais que dependem do consumo de massas.

Através de decreto presidencial, atropelando a maioria parlamentar de direita, legalizou cinco milhões de imigrantes em situação irregular.

Mais de dez milhões de estrangeiros seguem à mingua, vivendo e trabalhando em condições precárias, mas o feito foi suficiente para o conservadorismo ficar tinto de raiva.

Obama, logo em seguida, reatou relações diplomáticas com Cuba e amenizou o embargo que já dura meio século.

Como se não bastasse, veio a propor, durante o tradicional discurso sobre o Estado da União, no último dia 20 de janeiro, perante parlamentares das duas casas, reforma fiscal que combate a desigualdade social.

Seu projeto tem como base o aumento de impostos sobre os mais ricos e as empresas de serviços financeiros, arrecadando 320 bilhões de dólares em dez anos.

O governo poderá, com esta receita adicional, fornecer dois anos de curso gratuito nas faculdades comunitárias, entre outros benefícios aos grupos populacionais que vivem na base da pirâmide

O jornalista Ricardo Kotscho, amigo sempre atento e preciso, não hesitou em comparar as iniciativas de Obama com aquelas tomadas pela presidente Dilma Rousseff nas últimas semanas.

O líder da principal potência imperialista, diante da crise, mesmo que moderadamente, faz uma opção por financiar o Estado através da taxação das rendas mais altas, expandindo direitos e impulsionando o mercado interno.

O governo de Dilma Rousseff, neste momento, prefere ceder terreno à cartilha ortodoxa, ceifando gastos públicos e reduzindo benefícios, apostando mais em medidas que atraiam fluxos de capital do que fortaleçam o consumo popular.

Mas esta não é a única diferença.

Um dos principais argumentos para a adoção de políticas restritivas, pela administração dilmista, está na correlação desfavorável de forças, o álibi perfeito quando a decisão é evitar o confronto de projetos.

Com a esquerda em franca minoria nas duas casas legislativas, seria necessário acalmar o mercado para reanimar os investimentos e evitar o casamento de uma crise econômica com a debilidade parlamentar.

Barack Obama vive a mesma dificuldade congressual que sua colega brasileira, mas faz o caminho oposto para enfrentá-la.

O presidente norte-americano prefere o conflito com o Parlamento e a disputa aberta de posições na opinião pública, levando ao limite os poderes presidenciais previstos na Constituição.

Está recuperando sua imagem através da polarização, colidindo cotidianamente contra a direita e seus poderosos meios de comunicação.

Pode até ver algumas de suas propostas serem interditadas por deputados e senadores, mas aposta suas fichas no apoio social, escolhido como ferramenta preponderante para superar a inferioridade institucional.

A renúncia programática para evitar derrotas parlamentares, afinal, estava levando-o ao fundo do poço, pois nublava a expectativa de que fosse diferente dos presidentes que o antecederam, abertamente vinculados aos interesses das grandes corporações.

Obama representa tão somente um projeto de renovação do capitalismo norte-americano, centrado na reconstrução do mercado interno de massas. Isso não o impede, porém, de estar dando exemplos políticos que deveriam ser analisados com atenção ao sul do continente.

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Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi.