De vendedor de chá a primeiro-ministro: um perfil de Narendra Modi

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Imaginem a seguinte situação: como vocês reagiriam se Beto Richa, secretário de obras na Prefeitura de Curitiba em 2001, ganhasse a eleição presidencial de 2014, sobrepujando o partido da situação e passando por cima dos caciques políticos do próprio partido? Bastante improvável. É mais ou menos desse modo que podemos definir a trajetória política de Narendra Modi, o atual primeiro-ministro do segundo país mais populoso do mundo.

O garoto vendedor de chá na estação de trem em Gujarat teve uma ascensão meteórica.  Em 2001, era apenas o chefe do gabinete ministerial do estado natal no oeste da Índia e menos de 12 anos depois, era indicado a concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Defensor do nacionalismo hindu, o cientista político de 64 anos é conhecido pela dureza com a qual persegue seus objetivos. Segundo os colegas do partido BJP, Modi é capaz de transformar qualquer adversidade em oportunidade.

No entanto, os rivais não pensam do mesmo modo. Os adversários o comparam a figuras controversas como Pol Pot, Adolf Hitler e Slobodan Milosevic. De acordo com eles, a polícia estadual assistiu de braços cruzados aos ataques de radicais hindus contra muçulmanos em Ahmedabad, cidade histórica em Gujarat, no ano de 2002. Os ataques deixaram 100 mil desabrigados, mesquitas incendiadas e puseram em xeque a viabilidade da Índia como um país secular. Os mais exaltados chamaram os ataques de genocídio.

A confusão em Ahmedabad respingou até nas relações entre Índia e Grã-Bretanha.  Um relatório feito por uma comissão britânica em Nova Délhi responsabilizou o partido BJP pelos incidentes. Em artigo no Guardian, um grupo de acadêmicos especialistas em Índia defendiam o indiciamento de Modi pelo massacre. Advogados dos três ingleses mortos nos ataques hindus tentaram implicar Modi no caso a todo custo. O político manteve-se irredutível em não pedir desculpas pelo ocorrido. A  estratégia funcionou.

Para alegria de Atal Vajpayee, último primeiro-ministro pelo BJP (1998-2004), a esmagadora votação obtida pelo pupilo-problema encerrou 10 anos de domínio dos partidos de centro-esquerda. A posição claramente anti-islâmica de Modi, batizada de Moditva, deve garantir a continuidade do governo. Tal postura arranha as relações entre os hindus e os 14% de muçulmanos do pais. (os 140 milhões de islâmicos fazem da Índia a terceira maior população dessa religião no globo).

Tamanho protagonismo contrasta com a história de Modi antes de 2001. O terceiro dos quatro filhos de Damodardas Modi cresceu na loja do pai e logo passou a vender chá na estação de trem de Vadnagar. Os colegas da época o descrevem como um aluno mediano. Modi casou-se cedo, mas o matrimônio não consumado e foi mantido em segredo: de outro modo ele não seria aceito na Rashtriya Swayamsewak Sangh (RSS), uma organização não-governamental nacionalista e puritana.

Rompido com a família desde 1967, Modi abaraçaria de vez o trabalho na RSS em 1971. A rotina no escritório da ONG em Delhi começava às 4 horas da manhã. Era Modi quem limpava o escritório, lia a correspondência e preparava o café da manhã dos colegas. Em 1975, a primeira-ministra Indira Gandhi declarou estado de emergência e mandou prender inimigos políticos, Modi distribuiu panfletos contra o governo de modo clandestino.

Em 1978, ele iniciaria o curso de Ciência Política na Universidade de Delhi. Era o começo da carreira política. Sua capacidade de organização conquistou os colegas mais antigos do BJP em Gujarat. Ele teria um papel importante no crescimento do partido, fundado em 1980 – Modi foi um dos apoiadores da marcha de Lai Advani em 1990, evento que catapultou o BJP a nível nacional.  Os inimigos dentro do BJP o acusam de explorar as disputas dentro do partido em seu benefício.

Muito da sua imagem dentro da Índia nos dias atuais está ligada aos massacres contra os muçulmanos em 2002. Modi quase foi sacado da liderança do ministério em Gujarat por causa da matança de mais de mil islâmicos. Vajpayee, então primeiro-ministro estava angustiado com a violência no estado. Advani salvou a pele de Modi. O partido teria uma grande vitória na eleição de 2002 e o assunto ficou na história.

Com o passar do tempo, Modi seria símbolo da capacidade do BJP em fazer boas administrações em nível regional. Muitos eleitores da classe média começaram a votar em peso no partido por conta da gestão austera. O carisma de Modi e a sua postura “deixa que eu vou resolver isso” encantam os eleitores. O Partido do Congresso encontrou dificuldade em resolver os problemas do país, em particular, a falta de crescimento econômico e essa foi a deixa para a votação arrasadora nas últimas eleições.

Modi é uma figura peculiar. Nacionalista, anti-islâmico, solteirão e vegetariano. Devoto hinduísta, passou mais de quatro décadas cumprindo os nove dias de jejum do Navratri, o festival em homenagem a deusa Durga, a invencível. A conjuntura difícil ajudou a colar em Modi a imagem de negociador duro e de fazer o necessário para fazer o país voltar a crescer. Os resultados apareceram na urna. (com India Today e The Guardian)