Agora pode. Será?

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Disputa do segundo turno exige reflexão para evitar o pior

Não é de hoje que minha história de vida é conhecida. Como jornalista, nem poderia ser diferente. Estive, desde o início da minha carreira, perfilado do lado daqueles que combateram o arbítrio para que hoje os saudosos da ditadura pudessem votar e dizer que repudiam a democracia que os elege. E novamente é necessário se posicionar de forma corajosa e transparente.

A história é uma boa forma de antecipar tragédias e evitar descaminhos institucionais dos quais dificilmente conseguiremos nos livrar em pouco tempo com evidente prejuízo para todos. Não é preciso retroceder para avançar. Tem coisas que já aprendemos como sociedade. Uma delas é que a democracia é o regime possível e fortalecê-la se torna condição essencial para o progresso econômico e a justiça social. Se a democracia está doente, devemos dar-lhe o remédio correto, e não simplesmente deixá-la morrer porque, ao contrário de certas teses espirituais, é o aqui e o agora que interessa a milhões de brasileiros.

Num cenário de imenso desgaste da assim chamada “classe política”, os eleitores não pouparam ninguém. Vários nomes tradicionais, à esquerda e à direita, foram varridos do mapa nessas eleições. Mas, o que veio e se apresenta no lugar não é necessariamente a esperança de tempos melhores e, sim, a apresentação de um retrocesso sob a fachada de novo. O velho vem travestido de um comportamento amparado em discursos xenófobos, misóginos, racistas e homofóbicos. Sem falar de uma arrogância moral que faz do ataque à corrupção e da valorização de uma família perfeita que nunca existiu bandeira uma bandeira política que não alcança o próprio umbigo. Quem, perguntaria eu, já não cometeu um deslize ético nas relações familiares e sociais?

Portanto, nesse segundo turno, não está em jogo apenas a escolha de um presidente. Está em disputa a opção por projetos que são muito diferentes entre si. Um, majoritário até aqui, defende claramente pautas que, se aplicadas, vão tornar o Brasil motivo de apreensão nacional e internacional, seja na economia, seja na política, seja na esfera do comportamento. Quando a democracia deixa de ser um valor e é substituída por um ódio difuso contra a própria política, os mecanismos de coerção saem da esfera institucional de pesos e contrapesos para se transformar em senhas que abrem as portas para a justiça com as próprias mãos.

Daí que chamo a atenção, com humildade, daqueles que votaram em Bolsonaro no primeiro turno. Não tratem como “brincadeirinha” o fato de um candidato à Presidência afirmar que a ditadura brasileira “matou pouco”; que “filho viado é falta de porrada ”; que negro não serve nem mais para a procriação; que “as mulheres merecem ganhar menos do que os homens porque engravidam”; que “pessoas criadas por mães e avós, sem a presença do pai, são mais desajustadas”; que no caso de derrota eleitoral existe o recurso da força de um golpe.

Não, nada disso é “brincadeirinha”. Tudo isso está no horizonte pela boca de quem se propõe a nos governar. Alguém poderá dizer: “Mas, o que eu tenho a ver com isso?”. Exatamente. Você tem tudo a ver com isso porque se quiser que a fraternidade, o amor, a família e os nossos mais profundos valores de sociedade ordeira, pacífica e aberta prevaleçam é necessário lutar POR ELES e não CONTRA ELES.

Ainda há tempo para refletir. A situação econômica exige intervenções rápidas e eficazes, mas não podem prejudicar ainda mais os pobres. Qualquer saída para a crise passa, em primeiro lugar, pelo reconhecimento de que a nação é construída por milhões de brasileiros, sejam eles empreendedores ou trabalhadores. A Nação não é propriedade de banqueiros ou de mentes autoritárias que querem governar a partir de suas convicções exclusivas e excludentes.

Não, mil vezes não. Nesse grave momento da vida nacional, devemos pensar no futuro. Um ator de filme pornográfico não pode comandar nossas emoções. A valorização da família ou é ou não é, independente de que família cada um tenha. Pedir a morte de homossexuais porque não são “machos” ultrapassa qualquer sentimento cristão e flerta com o diabólico.

Quando um líder dá a senha para que se faça aquilo que se quer, entramos na perigosa seara da desordem pública com consequências imprevisíveis. Existem valores inegociáveis e um deles é a liberdade de pensamento e de expressão.

Para colaborar nessa reflexão, sugiro a leitura e a comparação dos programas dos candidatos que disputam o segundo turno.

Programa de Fernando Haddad

http://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2018/BR/BR/2022802018/280000629808//proposta_1536702143353.pdf

Programa de Jair Bolsonaro

http://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2018/BR/BR/2022802018/280000614517//proposta_1534284632231.pdf