Nicarágua: crise desafia esquerda latino-americana

Ismael Francisco/ Cubadebate
Ismael Francisco/ Cubadebate

Após 39 anos da vitória da Revolução Sandinista, a Nicarágua vive a tempestade perfeita.

Junte-se a insatisfação popular, fruto do desgaste de um governo centralizador e personalista, com os interesses de setores que nunca se conformaram com os sandinistas no poder e temos um caldeirão em ebulição.

O que deixa a situação ainda mais complicada é que há uma mobilização popular que está sendo severamente reprimida por forças policiais e grupos armados pelo próprio governo. O saldo é de mais de 340 mortos, 1.500 feridos e dezenas de desaparecidos, segundo relatos de organizações de direitos humanos, entre elas a Comissão Interamericana de Direitos Humanos que visitou o país e é presidida pelo brasileiro Paulo Abrão, que integrou a Comissão da Verdade no Brasil. Também do lado dos manifestantes existem pessoas armadas e os confrontos cobraram a vida de pelo menos 20 policiais.

Os “tranques” (barricadas) nas ruas das principais cidades, a interrupção das estradas pelos caminhoneiros, a ocupação de universidades, os ataques a prédios públicos e igrejas e o vai-vem militar resultam num cenário de insurreição que se parece muito com aquele de quatro décadas atrás quando os sandinistas derrotaram a ditadura de Anastácio Somoza.

Embora existam lideranças importantes e respeitadas na oposição ao presidente Daniel Ortega, inclusive ex-militantes da Frente Sandinista, o fato é que as características da atual rebelião que ocorre no país têm tinturas de polarização que extrapolam os interesses locais e colocam desafios para a esquerda latino-americana que teve na revolução nicaraguense uma fonte de inspiração.

A declaração do embaixador norte-americano na OEA, Carlos Trujillo, é eloquente nesse sentido. Disse ele: “Estamos respaldando o povo nicaraguense e a declaração da OEA é um triunfo para a democracia”.

A moção da Organização dos Estados Americanos a qual ele se refere não pede apenas o fim da repressão; exige, na prática, a renúncia de Ortega, cujo mandato vai até 2021, e a convocação de novas eleições sob supervisão internacional. O documento que pede a restauração da democracia no país foi aprovado no dia 18 de julho, ironicamente um dia antes da comemoração dos 39 anos da Revolução Sandinista. Aprovado por 21 votos, teve 3 votos contrários: Venezuela, Bolívia e a própria Nicarágua, cujo chanceler, Denis Moncada, acusa a existência de um golpe e coloca a OEA como cúmplice desse processo.

Se Ortega carrega na tinta ou não ao denunciar uma conspiração contra o seu governo, a realidade mostra que a atual rebelião não tem a hegemonia de lideranças políticas que disputem uma perspectiva popular na melhor tradição dos governos democráticos e progressistas que vigoraram na América Latina na primeira década deste século. As alas sandinistas que foram expulsas ou que decidiram abandonar o partido por conta do controle absoluto exercido pelo “orteguismo”, não conseguiram antes e nem conseguem agora apresentar uma saída política que garanta aquele espírito revolucionário que motivou o 19 de julho de 1979.

Apesar de serem, em alguma medida, manifestações espontâneas, autoconvocadas pelas redes sociais e sustentadas principalmente por jovens, os principais atores da oposição fazem parte de setores tradicionais da sociedade nicaraguense. Quem são eles? A ultraconservadora Igreja Católica, os partidos e subgrupos de direita, a imprensa antissandinista e o empresariado que, diga-se, foi o último setor a aderir à rebelião cívica, como a crise é batizada pela oposição. A esquerda organizada e os movimentos sociais têm participação ativa, mas pouca condição de hegemonizar o processo.

É nesse cenário que surge a tempestade perfeita. Quando os Estados Unidos já estavam se dando por satisfeitos em manter sob controle a maioria dos governos da América Latina e Trump se preocupando apenas com outros cantos do planeta, eis que surge uma nova oportunidade com a Nicarágua que, no plano externo, se coloca no campo bolivariano.

Mas, ironia à parte, a atuação norte-americana assume destaque na esfera diplomática por causa da forma como Daniel Ortega vem governando o país desde 2006 e o domínio absoluto que exerce na Frente Sandinista de Libertação Nacional e nas esferas de poder do Estado como a Justiça Eleitoral, as estruturas militares, o congresso e as empresas públicas sobre as quais recaem administrações nebulosas de familiares e amigos.

A eliminação de divergências e novas lideranças, consolidou a imagem de que Ortega seria o único capaz de retomar o governo para a Frente Sandinista depois da derrota eleitoral de 1990.

Sucessivamente candidato em todas as eleições desde então, fez acordos para garantir a governabilidade e mudanças constitucionais que resultaram em suas vitórias em 2006, 2011 e 2016. Ao mesmo tempo que se aproximou da Igreja Católica, convertendo-se ao catolicismo com direito à cerimônia de casamento com Rosário Murillo e apoiando a abolição do aborto em qualquer circunstância, construiu pontes duradouras com a iniciativa privada que passou a ter liberdade de atuação nos negócios, desde que não participasse da vida política do país como até então fizera. Em contrapartida, o governo garantiu uma linha de conciliação de classes de causar inveja às democracias liberais mais estáveis do mundo.

Com isso, se forjou um governo com baixa representatividade das massas respaldado num voluntarismo retórico de invocação do passado sandinista. O resultado foi o apoio de uma base social fincada no funcionalismo público e nas trocas de poder no varejo como cargos e compadrios.

Apesar de avanços importantes com a implantação de políticas compensatórias de renda num país que é o segundo mais pobre do continente, as classes médias se sentiram alijadas da participação política, sem conseguir expressar movimentos que atuassem para atenuar o papel hegemônico de Ortega na condução do país.

Se alguém visitasse a Nicarágua no dia 1 de abril deste ano, encontraria um país estável, com bom fluxo de turistas, economia em funcionamento e bom nível de segurança em comparação com os demais países centro-americanos. De repente, o mundo virou de cabeça para baixo com a irrupção de uma mobilização social sem precedentes e que colocou à prova um governo que, embora eleito com 73% dos votos nas eleições de 2016, carecia de diálogo com a sociedade em todas as suas expressões.

De um partido de vanguarda como era a Frente Sandinista desde a sua criação em 1963 até a vitória contra Somoza, quando se transformou num partido de massas, Ortega fez a proeza de fundar uma agremiação orteguista, muito próxima de um simbolismo autoritário e familiar que, independente de opções políticas, o povo nicaraguense repudiou ao derrotar o somozismo, em 1979.

Ao indicar a própria esposa para o cargo de vice-presidenta, Ortega faz movimento semelhante às tiranias familiares que, infelizmente, fazem parte da história do continente. Definitivamente, como discurso de esquerda, Ortega não ajuda a ajudá-lo.

Marco Piva é jornalista. Autor de “Nicarágua – um povo e sua história” (Edições Paulinas), apresenta o programa Brasil Latino na Rádio USP e escreve no site Opera Mundi.