São Romero da América Latina

Mártir religioso de El Salvador é nomeado santo e reacende esperanças na Teologia da Libertação

Quem desembarca no acanhado aeroporto de San Salvador pode não saber, mas o nome de Oscar Arnulfo Romero marca a história recente do menor país da América Central. Na condição de arcebispo da capital, Oscar Romero dedicou sua vida à causa dos mais pobres e corajosamente enfrentou a violência da ditadura militar da época. Foi morto com um tiro no peito enquanto celebrava missa na catedral, em março de 1980. Sua morte provocou a ira do povo e novos massacres aconteceram. Os responsáveis pelo seu assassinato, embora conhecidos, nunca foram condenados. Um deles, o coronel Roberto D’Aubuisson, conhecido chefe de esquadrões da morte, mora hoje nos Estados Unidos, recluso e impune.

A decisão do papa Francisco de nomear Oscar Romero como o mais novo santo católico é um ato de justiça tardio que a Igreja faz a todos os religiosos e religiosas que deram suas vidas pelo Evangelho na perspectiva do Concílio Vaticano II, ou seja, fizeram a opção preferencial pelos pobres. O bispo salvadorenho é o símbolo maior dessa jornada que gerou a Teologia da Libertação, criada pelo padre jesuíta peruano Gustavo Gutiérrez.

De hábitos simples, Romero percorria as zonas periféricas e ouvia relatos de horror sobre a violência praticada por milícias paramilitares financiadas pela ditadura de plantão. Decidido a denunciar os abusos aos direitos humanos em suas homilias, o religioso atraiu o ódio da extrema-direita militar que governava o país e se tornou alvo fácil, na medida que dispensava qualquer aparato de segurança.

Foi esse um dos motivos que o papa Francisco ressaltou ao justificar a nomeação. Para ele, Romero abandonou “a segurança do mundo, inclusive sua própria incolumidade, para entregar sua vida segundo o Evangelho, próximo aos pobres e a sua gente, com o coração magnetizado por Jesus e seus irmãos”.

O fato é que 38 anos depois da sua morte, Oscar Romero revigora a Teologia da Libertação, que andou bastante retraída em função da perseguição ocorrida nos papados de João Paulo II e Bento XVI. Agora na condição de santo, sua vida de compromisso com a justiça social fica plenamente marcada pelo que exatamente foi: um religioso que não mediu esforços para ser coerente com o Evangelho de Jesus Cristo e soube enfrentar o poder com a sua fé.

Para os salvadorenhos, que tentam com muita dificuldade consolidar sua democracia, o reconhecimento do papa Francisco adiciona uma esperança renovadora.