Em meio ao acirramento da campanha contra Maduro, surge a notícia do diálogo entre oposição e governo

Anúncio do início de conversas foi feito nesta segunda-feira, 24 de outubro (Foto: Ag. Efe)
Anúncio do início de conversas foi feito nesta segunda-feira, 24 de outubro (Foto: Ag. Efe)

Em meio ao acirramento da virulenta campanha internacional contra o governo Nicolás Maduro alardeada pelos meios de comunicação num uníssono nada estranhável surge a notícia, de certo modo surpreendente, de que o governo e a oposição resolveram, nesta segunda-feira, 24, iniciar um diálogo formal no próximo domingo 30 de outubro na ilha Margarita para superar a grave crise política, anunciou o enviado do papa Francisco, Emil Paul Tscherrig, núncio apostólico na Argentina.

O anúncio inopinado se dá em momentos que Maduro é recebido pelo papa Francisco no Vaticano, em audiência extraordinária, sem prévio aviso e logo após o encerramento de um giro do presidente venezuelano pelo Oriente Médio para tratar do preço do petróleo. Durante a audiência privada, o papa instou “ao diálogo sincero e construtivo” entre o governo e a oposição afim de “aliviar o sofrimento” das pessoas, precisou um comunicado da Santa Sé.

O secretário geral da OEA, Luis Almagro, o diretor da ONG Human Rights Watch, Vivanco, a Casa Branca, o recém-nomeado cardeal venezuelano Porras, Aznar, Uribe, Lagos, Felipe González, Macri, o nosso Serra e mais gente da mesma estirpe devem estar puxando os cabelos. Resta saber se a oposição comparecerá de espírito desarmado. E a primeiríssima condição para o diálogo é reconhecer a autoridade legítima de Nicolás Maduro e da liderança da oposição e ter como foco a solução dos problemas do país.

Tscherrig manifestou que o encontro preliminar efetuado sob os auspícios da secretaria geral da Unasul “transcorreu em clima de respeito, cordialidade e vontade política de fazer avançar o processo”…

Os representantes do governo e da oposição propuseram temas, metodologia e cronograma do diálogo. Além do mais, concordaram em trabalhar em conjunto “as condições para garantir a segurança e o desenvolvimento pacífico e democrático das manifestações públicas de ambos os lados previstas para os próximos dias.”

Para o leitor entender o que está se passando na Venezuela e que a nossa grande imprensa esconde é, preciso esclarecer que:

1. A direita ganhou a maioria qualificada na Assembleia Nacional nas eleições de dezembro de 2015;

2. Seu principal e quase único objetivo desde que tomou posse foi o de derrocar o presidente Maduro;

3. Gastou quatro meses debatendo qual seria o método para derrocar o, presidenta: a) exigir sua renúncia; processá-lo judicialmente; declarar sua incapacidade mental; nulidade das eleições por ser ele colombiano; emenda constitucional para encurtar seu mandato; constituinte; pressão nas ruas.

4. Somente em maio decidiram ativar o referendo revogatório. Ao ativar o mecanismo em maio e não em janeiro que era quando se cumpria a metade do mandato presidencial, a direita sabia que não daria tempo de realizar o revogatório ainda em 2016 devido aos prazos legais a serem cumpridos pelo Conselho Nacional Eleitoral.

5. Nestes meses, a Assembleia Nacional decidiu desacatar as sentenças do Tribunal Supremo de Justiça que anulavam suas iniciativas inconstitucionais. Como o parlamento manteve o desacato, o TSJ decidiu anular todos os atos da AN até que ela se ajuste ao direito e respeite a Constituição;

6. O presidente Maduro sempre esteve aberto ao diálogo. Pediu a facilitação da Unasul e aceitou a mediação dos ex-presidentes Rodriguez Zapatero, Martin Torrijos e Leonel Fernández. A direita exigiu a participação do Vaticano e Maduro prontamente acedeu.

7. Para convocar o referendo, a direita tinha de recolher na primeira etapa 1% das assinaturas do registro eleitoral. Na segunda etapa tinham de recolher 20% segundo reza a Constituição. A direita devia coletar apenas 195 mil assinaturas para cumprir o requisito de 1%. Levou ao CNE quase 2 milhões. A auditoria verificou que 606 assinaturas eram fraudulentas – pessoas falecidas, não inscritos no Registro Eleitoral, etc.;

8. Apesar disso, o CNE resolveu convocar a segunda etapa para os dias 26, 27 e 28 de outubro;

9. Em 20 de outubro, sete tribunais nacionais de distintos estados da Venezuela ditaram medidas cautelares após denúncia de cidadãos afetados ordenando ao CNE que suspendesse todos os procedimentos por ter ficado evidente a usurpação maciça de identidades. Em cumprimento das ordens judiciais o CNE suspendeu a coleta dos 20%;

10. A direita reagiu acusando o governo Maduro de ter dado um golpe de Estado, declarando-se abertamente em rebelião, alegando basicamente  que : Maduro quebrou a ordem constitucional; solicitou aos organismos internacionais a aplicação de sanções contra a Venezuela; destituir toda a direção dom CNE e todo o colegiado do Tribunal Supremo; decidir sobre a nacionalidade colombiana de Maduro para destituí-lo; decidir sobre o abandono do cargo também com o fim de destituir a Maduro.

Questões a considerar: quem deu o golpe – o agora famoso golpe parlamentar – em quem? A direita cometeu fraude na coleta de assinaturas e o responsável é o governo? A direita pretende uma intervenção externa sob o pretexto de uma inexistente crise humanitária. Um parlamento em desacato judicial pode pretender destituir juízes do tribunal máximo e diretores eleitos do CNE? Não será um golpe de Estado parlamentar pretender desconhecer a autoridade e as decisões de outros poderes públicos constitucionais? A chancelaria da Colômbia atestou que não havia registro algum da nacionalidade colombiana de Maduro. Não é acaso uma ação golpista buscar a destituição de um presidente por abandono de cargo quando é público e notório que está no exercício do cargo e nesse momento buscando um preço justo para o barril de petróleo?

Certamente os apoiadores da Revolução Bolivariana e os chavistas em geral estão dispostos a sair às ruas para defender a Constituição, a Revolução e o presidente legítimo.