2014, o ano do selfie feminista

2014, o ano do selfie feminista

O dicionário de inglês Oxford declarou selfie a palavra do ano de 2013. Segundo o dicionário, selfie é o substantivo que designa “uma fotografia que uma pessoa tira de si mesma, geralmente com um smartphone ou uma webcam, para postar em uma rede social”. Em bom português, o selfie é a foto-bracinho, que em terras brasileiras apareceu nos idos de 2004, junto com o Orkut (lembra?). Desde então, a popularização de celulares com câmera e redes sociais como Flickr, Instagram, Twitter e Facebook ajudaram a estabelecer essa narcisística, divertida, às vezes patética, modalidade fotográfica.

Nesse ano que acabou de terminar (e que parecia que não ia acabar nunca!), houve alguns selfies marcantes: os astronautas Luca Parmitano e Chris Cassidy tirando onda no espaço, Beyoncé divando com seu novo corte de cabelo, Darth Vader inaugarando a conta de Star Wars no Instagram, e Obama causando no funeral de Nelson Mandela com a primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schimdt, e o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron (ok, a gente sabe que Michelle Obama não estava fazendo cara feia para os três fanfarrões, mas foi engraçado e valeu o meme, vai).

Luca Parmitano zerando o cosmos com o selfie no espaço. Via Twitter

Fafarronice, autoafirmação ou “pedido de ajuda”? Em novembro, um post no site Jezebel vaticinou que os selfies das mulheres são apenas um reflexo high tech de como a sociedade nos ensina que a coisa mais importante sobre elas é a aparência. “Se nossa cultura estivesse encorajando mulheres a serem inteligentes, a palavra do ano seria ‘diplomie’, e sua definição seria ‘foto de uma conquista acadêmica postada nas redes sociais’. ‘Ei, olha, é o meu rosto!’ não é um feito. Sentir-se bonita é legal, mas pelamordedeus – ‘beleza’ está bem longe de ser a coisa mais importante sobre uma pessoa adulta. (…) Selfies não são pequenas fontes de orgulho e empoderamento, e nem são exercícios narcisísticos de piranhas tolas e convencidas. São uma reação lógica proporcionada pela tecnologia ao fato de sermos criadas para pensar que o que realmente importa é se as outras pessoas nos acham bonitas.”

O mundo feminista internético reagiu às intransigentes afirmações, lembrando que os selfies são uma estética com um potencial radical de dar visibilidade a pessoas e corpos historicamente discriminados e que não correspondem aos padrões de beleza ocidentais: pessoas e corpos não-brancos, com formas e tamanhos diversos, ou com expressões e identidades de gênero além do binarismo pênis/homem/masculino e vagina/mulher/feminino imposto pela nossa sociedade heteronormativa e heterossexista.

A blogueira Amy McCarthy, em um post emocionante (e com o qual eu me identifico bastante), conta que, para ela, tirar uma foto de si mesma e dividi-la com milhões de pessoas desconhecidas significa que ela percorreu uma longa jornada de aceitação de seu próprio corpo. “Tenho poucas fotos minhas na época do colégio porque eu me sentia gorda, feia e não-fotografável. É uma sensação de merda, provavelmente pouco conhecida por mulheres que se encaixam no padrão tradicional de beleza. Quando seu corpo é facilmente aceito por outras pessoas, é difícil entender como simplesmente tirar uma foto de si mesma pode ser um ato radical.” Para ela, os selfies têm sido parte dessa jornada de autodescoberta e amor-próprio. “Os selfies são uma maneira de tornar os nossos corpos visíveis, de um modo radical. Façam seus selfies, gentes – eles são um modo de dizer ‘vão se foder’ para os padrões que nos têm mantido infelizes por tanto tempo.”

O selfie de Amy McCarthy, via Bustle

A reação veio também como nós feministas gostamos de fazer: apropriando-nos do que é utilizado contra nós, tornando-o motivo de orgulho e autodeterminação. A hashtag #feministselfie pegou no Twitter, como uma maneira de celebrar pessoas e corpos de todos os tipos. A blogueira Veronica Arreola, do Viva la Feminista, lançou a proposta #365FeministSelfie, convidando pessoas a tirarem selfies diários durante todo o ano de 2014, a serem postados nas redes sociais com a hashtag do projeto ou no grupo do Flickr, que já conta com 165 fotos – e ainda estamos no sétimo dia do ano!

Aqui da nossa comuna feminista em terras holandesas, Maria, Filiz e eu damos a nossa contribuição para a campanha com um selfie feminista triplo carpado. Que 2014 seja um ano de felicidade, caminhos abertos e feminismo!

Alafiá!