Alô, Hollywood: filmes aprovados no teste Bechdel rendem mais

Alô, Hollywood: filmes aprovados no teste Bechdel rendem mais

Lembra do teste Bechdel? A cartunista Alison Bechdel cunhou a regra em uma tira de sua série Dykes to Watch Out For, estabelecendo que para um filme passar no teste ele deve (1) ter pelo menos duas mulheres, (2) as mulheres devem conversar entre elas, e (3) elas devem falar sobre qualquer assunto que não seja sobre um homem. Poucos filmes produzidos em Hollywood passam no teste, e uma das justificativas dos estúdios para não produzir filmes em que mulheres interpretam personagens autônomos – que não sejam somente as mocinhas a serem salvas e/ou conquistadas pelo galã, ou esposas/namoradas/mães/etc dos protagonistas homens – costuma ser que filmes centrados em mulheres não atraem público, e consequentemente não dão dinheiro – e na fábrica de sonhos, it’s all about money, babe.

 

A atriz Cate Blanchett, ao vencer o Oscar desse ano de melhor atriz por sua performance no filme “Blue Jasmine” (aprovado no teste Bechdelmandou a real: “Para as pessoas na indústria que ainda têm arraigada essa ideia que filmes com mulheres protagonistas são experiências de nicho: eles não são. O público quer vê-los, e eles ganham dinheiro. O mundo é redondo, gente.” Pois o datablog FiveThirtyEight realizou uma vasta pesquisa e comprovou o recado que os últimos anos de gordas bilheterias para filmes como “Jogos Vorazes” já estavam mandando para Hollywood: filmes que passam no teste Bechdel, ou seja, filmes em que as personagens mulheres são seres autônomos cuja existência não gira ao redor dos personagens homens, arrecadam mais dinheiro do que aqueles em que as mulheres aparecem em função deles.

 

O blog analisou 1615 filmes lançados entre 1990 e 2013 e aprovados no teste de acordo com o site Bechdel Test, examinando a relação entre a proeminência de mulheres e o orçamento e os lucros de cada filme. O orçamento médio de filmes que passam no teste é consideravelmente menor do que o dos que não passam: 35%, ou mais de um terço de diferença. Um orçamento apertado certamente influencia o resultado final de um filme, pois restringe as possibilidades durante a produção e, quando o filme está pronto, limita o investimento em publicidade e na promoção. Isso faz bastante diferença na bilheteria – se você nunca ouviu falar de um filme, dificilmente vai arriscar dar seu rico dinheirinho em um ingresso de cinema (que aliás anda pela hora da morte).

 

Executivas e executivos de Hollywood justificam essa enorme diferença no financiamento alegando que filmes centrados em personagens mulheres ou em que elas desempenham papeis mais significativos apresentam um retorno menor no investimento, lucram menos e são mais difíceis de vender no mercado internacional do que filmes que não passam no teste Bechdel. O FiveThirtyEight fez as contas e demonstrou que, mais uma vez, é balela: o retorno médio de filmes que passam no teste foi de 2,68 dólares por cada dólar investido em sua produção, enquanto o de filmes que não passam foi de 2,45 dólares. Como o blog sublinha, filmes com orçamentos menores tendem a ter um retorno maior do que aqueles com grandes orçamentos, mas esse ainda é um forte indício de que filmes com mulheres em papéis importantes estão se saindo bem na bilheteria. E no mercado internacional, fica elas por elas: filmes que passam no teste Bechdel, e filmes em que há menos de duas mulheres ou em que as mulheres não conversam entre elas levam 1,17 dólar por cada dólar investido (enquanto filmes em que mulheres só conversam sobre homens levam 1,06 dólar – também, quem quer ver esses filmes, gente?)

 

Anna e Elsa: sisters power em “Frozen”

 

Um dos filmes que passam no teste Bechdel com louvor é “Frozen”, animação da Disney lançada no fim do ano passado. Elsa e Anna estrelam essa história de amor entre irmãs, e a jornada de autoaceitação de Elsa e do apoio de Anna à irmã e a mensagem sobre a importância de ser quem se é têm rendido ótimas interpretações do filme, com leituras que colocam Elsa como a primeira heroína queer da Disney. O hino “Let It Go” (“Livre Estou”, na versão brasileira), cantado por Elsa durante a sua transição de princesa reprimida e isolada a poderosa e absoluta rainha do gelo, tem sido lido como uma ilustração da jornada por que passam muitas pessoas não-heterossexuais e transgêneras: do lamento à autoaceitação e por fim celebração da dor e da delícia de ser quem se é.

 


Desafio Transtudo: tente ouvir essa música e não passar os próximos dias cantarolando “let it go, let it goooo”

 

“Frozen” se tornou a animação com maior bilheteria de todos os tempos: o filme superou o recorde de “Toy Story 3″ (que passa no teste com reservas) chegando a 1,072 bilhão de dólares arrecadados no fim de março e tomando o lugar de “Piratas do Caribe: O Baú da Morte” (reprovado no teste) no top 10 das maiores bilheterias da história do cinema. Hollywood finge não entender, enquanto a pesquisa do FiveThirtyEight comprova e a Disney desenha: filmes com personagens mulheres aguerridas e autônomas = muitas verdinhas na bilheteria. O mundo é redondo, gente – e as mulheres mandam.