Conchita Wurst, a cantora de ouro que venceu o Eurovision e a Rússia transfóbica

Conchita Wurst, a cantora de ouro que venceu o Eurovision e a Rússia transfóbica

Conchita Wurst, desejando a todas inimigas vida longa. Imagem via Eurovision

 

O apelo de festivais de canções na TV parece ser universal – pelo menos é essa a impressão que tive por aqui nessa última semana, quando o festival Eurovision foi ao ar. Disputado entre países europeus, realizado e exibido na TV todos os anos desde 1956, o Eurovision é um dos programas televisivos ainda em exibição mais antigos do mundo e um dos mais assistidos em todo o planeta. Cada país é representado por uma canção, e esse ano 37 canções/países participaram do concurso. ABBA, Céline Dion e Julio Iglesias são alguns nomes conhecidos que foram catapultados para o sucesso a partir de vitórias no festival.

 

Pois o Eurovision desse ano da santa graça de 2014 coroou a maravilhosa Conchita Wurst, que representou a Áustria com a canção “Rise Like A Phoenix”. Conchita é a persona criada pelo cantor Tom Neuwirth em resposta à discriminação que ele sofreu durante a adolescência; “um manifesto pela tolerância e aceitação – já que não importam as aparências, o que importa é o ser humano”. Segundo a biografia disponível em seu site, Conchita e Tom são um time que trabalha em sincronia; a pessoa Tom e a figura artística Conchita “são dois personagens individuais com suas próprias histórias, mas com uma mensagem essencial a favor da tolerância e contra a discriminação”.

 

 

Sites e jornais do mundo todo, tão ávidos por rotular e mastigar o mundo e incapazes de lidar com nuances e complexidades, se embaraçam na vã tentativa de encaixar Conchita em uma categoria pré-definida. Drag queen, travesti, pessoa trans – e até o infeliz “mulher barbada” – são alguns dos epítetos utilizados para se referir à cantora. Para todos os efeitos, Conchita é uma mulher com uma bela e vistosa barba, trazida à vida por Tom, um homem gay. E por embaralhar nossas limitadas noções de sexo, gênero e sexualidade, Conchita e Tom escancaram a ignorância e a má vontade dos caretas, além de serem alvo de ataques transfóbicos dos suspeitos de sempre. Um deles é o deputado russo Vitaly Molonov, o mesmo que criou a lei anti-“propaganda homossexual” no país. No fim de abril, Molonov escreveu uma carta ao comitê de seleção do Eurovision na Rússia pedindo que o país não participasse do que ele chamou de “parada gay europeia” e “show de Sodoma”. Para Molonov, a presença da Rússia no festival seria uma contradição em face do “caminho de renovação cultural e moral em que a Rússia se encontra atualmente. A participação do óbvio travesti e hermafrodita [sic] Conchita Wurst no mesmo palco em que as cantoras russas é uma ostensiva propaganda da homossexualidade e da decadência espiritual.” Milonov declarou também que “o pervertido da Áustria” deveria ser excluído do evento, e convocou o povo russo a  boicotar o Eurovision.

 

O povo russo não só não deu ouvidos ao energúmeno, como caiu de amores por Conchita: dois dias depois da vitória no Eurovision, a versão de “Rise Like a Phoenix” apresentada no festival no último sábado está em primeiro lugar na lista de downloads do iTunes na Rússia, e a versão de estúdio da mesma canção está em quarto lugar – enquanto a música que representou a Rússia, “Shine”, está na décima-terceira posição. As Tolmachevy Sisters, intérpretes da canção, foram sistematicamente vaiadas durante o festival, e as vaias se repetiram cada vez que a Rússia era mencionada. O pessoal é político, e o entretenimento também: a vitória de Conchita foi também uma clara declaração pró-LGBT de uma Europa cada vez mais irritada com os desmandos de Vladimir Putin no cenário internacional. Para o jornal alemão Die Welt, o Eurovision se desenrolou como um filme de James Bond, com a Rússia, sempre a vilã, derrotada pela Goldsinger Conchita.

 

Em seu breve e emocionado discurso ao vencer o festival, Conchita dedicou a noite a todas as pessoas que acreditam em um futuro de paz e liberdade: “Vocês sabem quem são: tamojunto e ninguém vai nos parar!” Toma essa, Putin. É nóis.

 

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Conchita é fabulosa, mas se é pra falar de música e gender bending eu sou mais o hip hop raivoso de Mykki Blanko: