Dez passos para acabar com a cultura do estupro

Marcha das Vadias em Belo Horizonte em 2012. Foto: Mídia Ninja
Marcha das Vadias em Belo Horizonte em 2012. Foto: Mídia Ninja

 

Uma cultura que reproduz ideias degradantes sobre as mulheres e sobre a sexualidade feminina e que ensina aos homens que a masculinidade está estritamente ligada à violência só poderia receber uma alcunha: cultura do estupro. Levar os agressores e estupradores à Justiça é um começo, mas não é suficiente para acabar com a violência sexual. Cada ato de violência deve ser entendido como manifestação de uma cultura que o incentiva e o justifica. A revista norte-americana The Nation publicou uma lista com dez passos para acabar com a cultura do estupro (mais dois importantes itens como bônus). Traduzi e fiz algumas adaptações para o contexto brasileiro, mas a essência é a mesma: podemos e devemos agir para acabar com a cultura do estupro.

1. Identifique os verdadeiros problemas: uma concepção violenta da masculinidade e a insistência em culpar as vítimas. Ao comentar um episódio de violência sexual, as primeiras perguntas costumam ser sobre as roupas que a mulher estava usando, onde ela estava, se estava sozinha, se tinha bebido, ou como ela vive a sua vida sexual. Essas não são as perguntas a serem feitas. Em lugar disso, deveríamos pensar sobre que mensagens os agressores receberam sobre estupro e sobre o que significa ser homem. A pergunta não é “O que ela estava fazendo/usando/dizendo quando foi estuprada?”, e sim “O que fez o agressor pensar que isso era aceitável?”

2. Reveja e reinvente a masculinidade. Estupro e violência sexual não são um “instinto natural do homem”. Uma vez identificada a relação entre masculinidade e violência, devemos nos perguntar: a masculinidade é inerentemente violenta? Como ser homem ou ser masculino sem ser violento?

3. Atente para o consentimento entusiástico. A cultura do estupro se baseia em nossa inclinação coletiva em culpar a vítima e encontrar justificativas para o estuprador. O consentimento entusiástico é a ideia de que nós somos responsáveis por nos certificar de que nossos parceiros estão realmente a fim. Uma linda campanha da Universidade Católica de Moçambique explica bem o conceito: “O consentimento em ter relações sexuais é quando ambos concordam em ter relações sexuais. Não é apenas permitir algo. É saber com certeza que AMBOS realmente se desejam um ao outro. (…) Silêncio, ou não responder – não é consentimento. Consentimento de uma pessoa com idade menor de 18 anos, NÃO é consentimento. Consentimento dado por medo da reação do seu/sua parceiro/a, NÃO é consentimento. ‘Não tenho a certeza se estou preparado.’ ‘Não sei se quero.’ ‘Acho que bebi demais.’ ‘Não quero contrair HIV.’ ‘Estou com medo.’ Todas estas afirmações significam ‘Não’.”

4. Fale sobre o que você realmente quer. A responsabilização da vítima se baseia em ideias obsoletas sobre como homens e mulheres vivem a sexualidade. Reflita sobre o que você quer e espera do sexo e fale sobre isso com seus amigos e seu parceiro ou sua parceira. É um ato simples e revolucionário.

5. Informe-se sobre a mídia. Tudo aquilo que você lê nos jornais e nas revistas, ouve na rádio, vê na televisão e assiste no cinema, é um produto, algo que foi imaginado e criado para ser consumido por você e para fazer você consumir. Questione sobre quem faz essa mídia, quem cria essa cultura: quem se beneficia da perpetuação da ideia da mulher-objeto e da exploração da sexualidade e do corpo de mulheres e meninas? Procure se informar e apoiar publicações e produtos culturais que representam as mulheres como seres humanos com direito à autonomia sobre o seu próprio corpo, e que perpetuem uma ideia de sociedade que seja realmente inclusiva e justa, para todes.

6. Globalize a sua consciência sobre a cultura do estupro. Em abril de 2011, um policial canadense dava uma palestra sobre saúde e segurança para um grupo de estudantes em uma faculdade de Direito em Toronto. Com muita tranquilidade, o famigerado agente da lei e da ordem afirmou que, para não serem vítimas de agressões sexuais e estupros, as mulheres deveriam evitar se vestir como “vadias”. A declaração foi respondida por milhares de mulheres no mundo todo, que saíram às ruas nas Marchas das Vadias para reafirmar o direito sobre o próprio corpo e de se vestir como bem entenderem, sem sofrerem repressão ou violência: “se ser livre é ser vadia, somos todas vadias”.

Sociedades diferentes têm ideias diferentes sobre o que é e como enfrentar a violência de gênero. Por isso é importante se informar sobre o que acontece em outros países e como mulheres e homens estão se organizando em todo o mundo para acabar com a cultura do estupro e a violência sexual.

7. Conheça a sua história. A sua história é a história da sua comunidade, da sua cidade, do seu país. Procure se informar sobre a história do Brasil – um país marcado pela exploração colonialista e pelo horror da escravidão e que continua reproduzindo a violência sancionada pelo Estado – e sobre como gênero, classe e etnia recortam e determinam os processos de formação da sociedade brasileira.

8. Tenha uma abordagem interdisciplinar. A violência de gênero não afeta somente as mulheres: gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e queers também sofrem violência em taxas desproporcionalmente altas. Além de gênero e sexualidade, reflita sobre como renda e etnia também determinam profundamente a experiência e as oportunidades que uma pessoa pode ter na comunidade em que você vive e no país como um todo. O que você pode fazer sobre isso?

9. Pratique a política no seu dia a dia. Quando alguém que você conhece chamar uma mulher de “piranha” ou “vadia”, procure estabelecer um diálogo, tentando entender porque aquela pessoa utilizou tal palavra naquele contexto. Tente mostrar que esses termos não são inócuos, pelo contrário: eles trazem consigo uma série de pré-julgamentos e conceitos discriminatórios e misóginos sobre a sexualidade de mulheres e de homens. E que isso contribui para a perpetuação da cultura do estupro e da responsabilização da vítima. Sim, é uma tarefa dura que exige bastante paciência, mas acredite: funciona.

10. Aja, atue, denuncie. A cultura do estupro se baseia também na aceitação passiva da degradação das mulheres, na prática de culpar a vítima e na associação entre masculinidade e violência em nossas comunidades, reais ou digitais. Quando vir algo que reproduza ideias misóginas, homofóbicas ou racistas, denuncie. Você pode agir ativamente para evitar a proliferação de perfis que incitem a violência no Facebook ou retirar uma publicidade ofensiva do ar. Mas não fique só nos cliques: vá para a rua! Seja a mudança que você quer ver no mundo, e una-se a pessoas e grupos que estão trabalhando e se organizando para construir essa mudança coletivamente.

E mais:

Não ria do estupro. Violência sexual, racismo, homofobia, misoginia: ao contrário do que muita gente acredita, nada disso é engraçado. Rir e contar piadas sobre agressões sexuais ajuda a difundir a mensagem de que há tipos “legais” de estupro. Não há. Violência sexual não tem graça nenhuma.

Conte a sua história. O pessoal é político. A sua experiência pode ajudar outras vítimas e fomentar um movimento de combate à violência na sua comunidade, na sua cidade, no seu país. Se você ainda não se sente à vontade para dividir a sua experiência com outras pessoas, comece contando a sua história para você mesma. Lembre-se de que você não é responsável pelo que aconteceu. É importante ressaltar sempre: a culpa nunca é da vítima.

*

Post atualizado em 26 de maio de 2016, em meio a uma denúncia aterradora de um estupro coletivo perpetrado por 30 homens contra uma garota de 17 anos no Rio de Janeiro. Unamo-nos, mulheres. Melhorem, homens. Lutemos todes pelo fim da violência sexual e da cultura do estupro que a autoriza e legitima.