Grupos religiosos LGBT promovem respeito à diversidade dentro e fora das igrejas

Grupos religiosos LGBT promovem respeito à diversidade dentro e fora das igrejas

Tenho pra mim que Jesus Cristo, esse cara maneiríssimo que acabou pregado num pedaço de madeira por ter dito que as pessoas poderiam ser legais umas com as outras pra variar, ficaria bastante chateado se tivesse ideia das sandices que muita gente diz fazer em nome dele. Muitas religiões e seus seguidores se dizem cristãos e avançam uma verdadeira campanha das trevas em nome de uma moral sexual que determina estreitas definições de homem e mulher, sexo somente para fins reprodutivos e a equivalência entre prazer sexual e pecado (é bom não esquecer também do histórico de apoio ao genocídio de povos nativos e à escravidão do povo negro, além da muito atual perseguição de práticas espirituais consideradas “não-cristãs”).

 

 

Felizmente, as instituições que encampam crenças religiosas e cujos reais interesses são dinheiro e poder político não falam por todas as pessoas que se dizem credentes, e uma pesquisa encomendada pela ONG Católicas pelo Direito de Decidir, realizada entre maio e junho de 2013 nas cinco regiões do Brasil, deixou bem claro esse descompasso. Das pessoas entrevistadas entre 16 e 30 anos, 82% apoiaria total ou parcialmente se a Igreja resolvesse permitir o uso da pílula do dia seguinte, e 75% dos católicos com mais de 31 anos também apoiariam a decisão. A união entre pessoas do mesmo sexo seria apoiada por 56% dos jovens católicos e por 43% dos fiéis mais velhos. A absurda prisão de mulheres que recorrem ao aborto, prevista pela lei brasileira, é rejeitada pela maioria das pessoas entrevistadas: 60% entre jovens das regiões Norte, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste, e 77% entre jovens da região Sul do país.

 

Imagem via Huffington Post

 

Nesse cazzo contexto, o trabalho de pessoas que adotam e professam o cristianismo e avançam dentro e fora de suas igrejas o respeito e o amor às pessoas LGBT é um alento e algo a ser celebrado. Essa semana, o site da Al Jazeera publicou uma longa e enternecedora matéria sobre a irmã Monica (nome fictício), uma freira que vive no Sul dos Estados Unidos e que se dedica especialmente a pessoas trans. Monica começou a trabalhar com a comunidade católica LGBT no fim dos anos 1990, e diz ter recebido um “chamado” para servir às pessoas trans que ela foi conhecendo durante os últimos 15 anos. Dawn Wright é uma delas: na infância, quando estudava em uma escola católica, morria de vontade de brincar com as meninas, mas um padre declarou que ela iria para o inferno se o fizesse e a castigou com a palmatória. Na juventude, Dawn serviu como piloto de jatos F-4 na Guerra do Vietnã. Na vida adulta, aos 50 e pouco anos e após uma série de tentativas de suicídio desde a adolescência, Dawn perdeu a esposa e a filha, que a abandonaram quando ela decidiu viver como mulher – algo que, ainda segundo os padres que ela procurou, também a levaria direto para o inferno. “Monica salvou a minha vida”, diz Dawn, que ao lado da freira voltou a frequentar a igreja, em uma congregação que a fez sentir bem-vinda e acolhida. “Me senti segura em uma igreja católica pela primeira vez desde os meus cinco anos de idade”, diz ela. “Durante toda a minha vida eu rezei para que eu acordasse e me sentisse normal. Eu gastei muito mais rosários do que posso contar. Agora, eu acordo e me sinto normal.”

 

Segundo a matéria, a Igreja Católica não tem uma política oficial sobre transgeneridade, e talvez isso seja uma coisa boa: “o silêncio funciona de uma maneira estranha no catolicismo”,  e permite que as vozes e histórias de pessoas trans católicas sejam ouvidas. Uma política oficial que condene pessoas trans causaria enormes transtornos para a comunidade trans católica e poderia dificultar ainda mais a vida de Monica, que é obrigada a se manter no anonimato e a não chamar atenção para seu trabalho, já que ele poderia atiçar a resistência e o antagonismo das autoridades eclesiásticas.

 

As congregações estadunidenses de mulheres católicas têm estado no radar do Vaticano nos últimos anos, em parte por uma suposta promoção de “temas feministas radicais” em sua teologia, afirma a matéria da Al Jazeera. No Brasil, a Católicas pelo Direito de Decidir é uma organização declaradamente feminista e que avança os temas da autonomia e da liberdade das mulheres, promovendo o diálogo inter-religioso e a mudança dos padrões culturais e religiosos especialmente no exercício da sexualidade e da reprodução, com grupos equivalentes nos EUA e na América Latina hispanofalante. A ONG também apoia a luta contra a homofobia e a violência e discriminação contra pessoas LGBT. As Pastorais da Diversidade Católica espalhadas pelo país também oferecem apoio a pessoas LGBT católicas e seus familiares, com grupos no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Recife. O blog da Diversidade Católica, inclusive, lembra que “a mesma Igreja que tantas atrocidades perpetrou ao longo da História (e perpetra ainda, inegavelmente) em nome de “Deus” (entre aspas porque é aquele Deus opressor cuja imagem serve apenas à perpetuação de estruturas humanas de poder, sem nada a ver com o Deus da mensagem evangélica) é a mesma que produziu Dom Helder Camara, José Comblin, Zilda Arns, Josimo Tavares, Oscar Romero, Dorothy Stang, Frei Betto, Leonardo Boff; os agentes da pastoral da AIDS, da pastoral da terra – que vêm sendo silenciosamente martirizados no norte do país – e tantos outros que colocam o amor e o serviço ao próximo no centro e acima de suas próprias vidas.”

 

Transtudo tá junto com quem fecha com o bonde do amor, da alegria e do respeito. Com Deus ou sem deus – e com rosários bem longe dos nossos ovários e dos nossos corpos, amém.

 

Essa Santa Ceia eu não perderia por nada! Imagem via MFCarter

 

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Wilson Gomes, professor da UFBA, escreveu um texto sensacional na revista Geni sobre o Levítico, um livro da Bíblia utilizado por muitas pessoas “”””cristãs”””” como justificativa para a condenação da homossexualidade. Segundo o texto bíblico, tá proibido, entre (muitas) outras coisas: sexo entre dois homens; comer carne de coelho, lebre, porco, peixe sem escama, avestruz, cisne, cegonha, garça, morcego, toupeira, rã e camaleão; xingar surdos; dar rasteira em cegos. Tá liberado: escravizar povos não-cristãos. Então tá então.

 

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Se você conhecer outros grupos religiosos de apoio a pessoas LGBT, compartilha o amor, por favor! Pode comentar aqui embaixo ou mandar pra carol@revistasamuel.com.br, que eu atualizo o post e coloco os contatos aqui. Gratidão!