Modelos boladonas de Rick Owens roubam a cena na Semana de Moda de Paris

Modelos boladonas de Rick Owens roubam a cena na Semana de Moda de Paris

Imagem via YouTube

 

 

Não tenho nada de fashionista, mas quando uma querida amiga (beijo, Reich!) descolou convites para o Fashion Rio no início de 2012 e me chamou pra ir junto, eu fui amarradona. Era a minha primeira vez em um evento de moda (e algo me diz que foi também a última). Eu estava bastante empolgada, já que iríamos assistir ao desfile de uma marca que eu adoro (e cujas peças eu compraria caso os preços permanecessem na casa dos dois dígitos, o que raramente acontece).

 

Bom, lá estávamos. As luzes se apagaram, a iluminação cênica se acendeu, o desfile começou. Quando a primeira modelo pisou na passarela, eu levei um susto. Olhei incrédula para as outras pessoas no recinto, esperando encontrar em outros rostos o mesmo incômodo. Nada. Aparentemente eu era a única pessoa profundamente perturbada com a inacreditável – e definitivamente nada saudável ou natural – magreza da modelo. Outras vieram, passaram e se foram, todas aplaudidas pelo público, provavelmente encantado com as peças e as lindas cores da coleção. Eu, no meu canto, passei os pouco mais de dez minutos do desfile em estado de choque. A polêmica sobre a excessiva magreza das modelos de passarela é antiga, mas quando vi os corpos magérrimos daquelas mulheres em movimento me dei conta de que esse padrão de beleza não é só irreal: é doentio e criminoso. Fosse eu uma pessoa mais ousada, teria assentido ao ímpeto de intervir no desfile e chamar a atenção do público e das modelos para aquela insanidade.

 

Conto essa história porque acabo de assistir a um vídeo que me emocionou muito e alimentou minhas esperanças de que um dia as passarelas sejam povoadas por pessoas de diferentes cores e tamanhos. O estilista estadunidense Rick Owens preparou um espetáculo maravilhoso para o seu desfile na Semana de Moda de Paris, realizado no último dia 26 de setembro. Em lugar das modelos magérrimas e majoritariamente brancas que costumam dominar esses eventos, Owens convidou dançarinas de quatro grupos de step dance, uma modalidade de dança competitiva com longa tradição na comunidade universitária negra nos EUA.  Segundo a NY Mag, stepping mistura “movimentos percussivos com batidas de mãos e pés e gritos de guerra executados com precisão militar”, e as dançarinas combinaram perfeitamente com a estética pessoal do estilista, “baseada em beleza não-tradicional, autoconfiança e poder”.

 

 

“É um fenômeno tão estadunidense”, comentou Owens após o desfile. “Eu me senti atraído pela bravura delas, era um grande ‘foda-se’ para a beleza convencional. Elas estavam dizendo ‘somos lindas do nosso jeito'”. A maior parte das mulheres no palco eram negras, e nenhuma delas tinha as medidas com as quais os estilistas costumam trabalhar. Owens produziu cada roupa de acordo com o corpo de cada mulher que a levaria à passarela: “É importante que a gente fale sobre o trabalho com diferentes tipos de corpos. Foi um bom exercício pra mim”, disse o estilista.

 

A impressionante performance das dançarinas e a potente expressão corporal de cada uma delas obviamente roubaram a cena. “As roupas deixaram uma impressão, mas elas não foram as estrelas do show”, sublinhou o colunista da NY Mag. “Às vezes, elas não têm mesmo que ser.” Taí um desfile que eu adoraria ver ao vivo. Um viva a Rick Owens e às step dancers!