Não precisamos de perdão, papa Francisco: mulheres não se arrependem de abortar

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Jorge Bergoglio, também conhecido como Papa Francisco, declarou nesta terça-feira (01/09) que os funcionários da instituição que ele chefia, a Igreja Católica, estão autorizados a perdoar formalmente mulheres que tenham abortado e peçam “perdão arrependido de coração”.

Na carta que estipula a nova orientação, Bergoglio falou sobre o “calvário existencial e moral” enfrentado por mulheres que interromperam a gravidez. Disse também ter conhecido “mulheres que carregam em seus corações a cicatriz dessa decisão angustiante e dolorosa”. Mas o perdão a essas mulheres, atenção, está dentro do pacote do “Ano do Jubileu da Misericórdia”, que vai de dezembro de 2015 a novembro de 2016 – antes e depois disso elas seguem condenadas ao inferno, sorry.

Alguém deveria avisar Bergoglio que ele anda bastante desinformado: uma série de estudos realizados nos últimos anos nos Estados Unidos sobre os sentimentos das mulheres após abortar mostram que a enorme maioria delas não se arrepende da decisão. Muito pelo contrário: o sentimento geral após o aborto é de alívio, que se soma à certeza, que tende a aumentar à medida que o tempo passa, de que aquela foi a decisão certa a ser tomada no momento.

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Em países como os EUA, onde o direito ao aborto seguro é garantido pelo Estado, grupos antiaborto se utilizam de diferentes estratégias para cercear e impedir o acesso das mulheres a esse direito. A propagação de mitos sobre o procedimento e seus efeitos sobre a saúde física e psicológica das mulheres que o realizam é uma delas. Fala-se inclusive em uma “síndrome pós-aborto”, uma espécie de estresse pós-traumático que consistiria em depressão e arrependimento causados pelo procedimento.

Balela. E não faltam pesquisas – e mulheres – pra comprovar. Um estudo publicado em 2000 acompanhou 442 mulheres nos EUA até dois anos após elas terem realizado um aborto. Após esse período, 72% delas se disseram satisfeitas com a decisão e 80% não apresentavam depressão. A taxa de depressão entre elas, na verdade, era igual à taxa da população em geral. E estas, segundo o estudo, já apresentavam histórico de depressão anterior à realização do aborto.

“A experiência de uma gravidez indesejada é por si só angustiante, assim como frequentemente são os eventos relacionados a ela. Por exemplo, o parceiro pode responder à gravidez indesejada abandonando a mulher. O aborto então ocorre em um contexto de perda e abandono, e a depressão ou a angústia acabam sendo atribuídas ao procedimento”, escreve Nancy Adler, psicóloga da Universidade da Califórnia. A intimidação por parte dos manifestantes antiaborto que se postam em frente aos centros de saúde que oferecem o procedimento nos EUA também pode ser um fator na ocorrência de transtornos psicológicos em algumas mulheres após o aborto, acredita Adler.

Em outro estudo, este publicado em 2013, 90% das mulheres entrevistadas declararam alívio após terem abortado. Mesmo entre as que apresentaram sentimentos negativos após o procedimento, a enorme maioria (89%) afirmou que aquela tinha sido a decisão certa. Para os pesquisadores responsáveis pelo estudo, a dificuldade em decidir pelo procedimento e em ter acesso a ele está diretamente ligada aos sentimentos negativos com relação ao aborto.

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O estudo mais recente sobre a questão, publicado em julho desse ano, concluiu que a probabilidade de uma mulher não se arrepender de abortar é de 99%. Das 667 mulheres entrevistadas no período de três anos após a realização do procedimento, 95% afirmaram que aquela tinha sido a decisão certa para elas. Assim como no estudo de 2013, os pesquisadores indicaram que os sentimentos negativos com relação ao aborto estavam relacionados ao nível de planejamento da gravidez e à dificuldade em decidir por sua interrupção. Ou seja: as mulheres que optaram por interromper a gravidez não tanto porque não queriam filhos no momento, mas devido aos impedimentos econômicos ou sociais a que estavam submetidas, apresentaram mais sentimentos negativos após o aborto – que ainda assim não configuram arrependimento, pois também elas afirmaram, três anos depois, que aquela tinha sido a melhor decisão.

Ainda segundo o estudo, outro fator que leva as mulheres a se sentirem em conflito após a realização do aborto é o estigma e a falta de apoio em suas comunidades com relação à decisão de interromper a gravidez. Estes dois aspectos estão diretamente ligados – que coisa! – à igreja representada por Bergoglio (entre outras). A ideia de que o aborto é um “pecado” ainda provoca angústia e culpa em muitas mulheres que optam por interromper uma gravidez que elas não querem ou não têm condições de levar adiante. Esta condenação, mais a atuação de funcionários e fieis da igreja de Bergoglio (entre outras) junto a legisladores e políticos, alimentam também a investida contra as mulheres nos países em que elas já têm esse direito garantido, como nos EUA, e a criminalização do procedimento em países que insistem em penalizar as mulheres que decidem sobre seus corpos, como no Brasil. A elas, a clandestinidade, que lhes aflige com o temor da prisão e com frequência se traduz em abortos realizados em condições insalubres, que lhes custam a saúde e a vida.

Lembro bem que a igreja de Bergoglio, que hoje oferece perdão a mulheres arrependidas de abortar (mas só por um ano; tá pensando que a Igreja Católica é bagunça?), excomungou uma menina de 9 anos de idade, além de sua mãe e seus médicos, que optaram pelo aborto legal quando a criança ficou grávida em decorrência de um estupro em 2009, em Pernambuco. O estuprador – impossível esquecer – foi poupado de tal condenação. A menina, que hoje estará com seus 15 anos de idade, poderia receber o perdão da igreja se se declarasse “arrependida de coração” do aborto que lhe salvou a vida e lhe deu a chance de seguir sendo uma criança, ainda que com o trauma da violência sexual de que foi vítima. Não posso ter certeza, mas algo me diz que ela, assim como as milhões de mulheres que abortam, sempre abortaram e continuarão abortando independentemente dos ditames de Bergoglio e seus pares, têm uma boa ideia do que o pontífice poderia fazer com este “perdão”.