“Por que filmei meu aborto”

"Por que filmei meu aborto"

Emily Letts tem 25 anos e trabalha como conselheira em um centro de saúde da mulher em Nova Jersey, nos EUA, dando apoio para mulheres que decidem realizar um aborto. “Trabalhando em uma clínica de abortos, você sempre acha que está grávida. Por ouvir todos os dias histórias de mulheres que só descobriram que estavam grávidas na vigésima semana de gestação ou que continuaram menstruando enquanto estavam grávidas, eu faço testes de gravidez o tempo todo.” Eis que, um ano após começar a trabalhar na clínica, o teste de Emily resultou positivo: “No momento em que uma mulher olha para o teste e vê aquele resultado positivo que ela não esperava, é como se o tempo implodisse e explodisse simultaneamente. Você se vê em meio a esse tornado que tira todo o ar de dentro dos seus pulmões.” Ela sabia que não estava pronta para ter filhos e decidiu interromper a gestação.

 

Nos EUA, onde o aborto é legal e realizado de maneira segura em clínicas como o centro em que Emily trabalha, há três maneiras de se realizar um aborto no primeiro trimestre de gravidez: aborto médico ou farmacológico, induzido pela ingestão da pílula RU486; aborto cirúrgico com o uso de sedativos, em que a pessoa permanece inconsciente durante o procedimento; e aborto cirúrgico com anestesia local, em que a pessoa permanece acordada e pode acompanhar o procedimento. De acordo com a experiência de Emily como conselheira na clínica, a última opção é a que mais assusta as pessoas que decidem realizar um aborto. Por isso, ela decidiu usar sua própria história para desmistificar o aborto cirúrgico: “Eu procurei na internet e não encontrei nenhum vídeo de um procedimento cirúrgico em uma clínica que se concentrasse na experiência da mulher. Falamos tanto sobre aborto e ninguém sabe como ele de fato acontece. Um aborto realizado no primeiro trimestre de gestação dura entre três e cinco minutos. É mais seguro do que o parto. Não há cortes, e o risco de infertilidade é de menos de 1%. Mesmo assim, muitas mulheres chegam na clínica aterrorizadas e acreditando que serão abertas com um bisturi, convencidas de que não serão mais capazes de ter filhos depois do aborto. A desinformação é impressionante, mas pense: ainda assim, elas estão dispostas a ir em frente porque sabem que não podem levar a gravidez adiante. (…) Eu poderia ter tomado a pílula, mas eu quis fazer o procedimento que mais assusta as mulheres. Eu queria mostrar que não há nada a temer – e que existem histórias de aborto positivas. É essa a minha história.”

 

O vídeo realizado por Emily tem apenas três minutos e dezoito segundos, e a mostra na sala de cirurgia, tranquila e sorridente conversando com a equipe médica, formada por seus colegas de trabalho na clínica – não há sangue nem sofrimento. “Eu sabia que as câmeras estavam na sala durante o procedimento, mas eu esqueci quase imediatamente. Estava concentrada em pensar positivo e sentir o amor de todo mundo dentro da sala. Tive muita sorte por conhecer todas as pessoas envolvidas, e ter tanto apoio. (…) Eu sei que parece estranho, mas pra mim, foi uma experiência parecida com um parto. Essa vai ser sempre uma recordação especial pra mim.”

 

 

A importância da atitude e do vídeo de Emily é justamente a colaboração para eliminar o estigma com relação ao aborto. “Eu sei que existem mulheres que sentem remorso. Eu já presenciei suas lágrimas. O luto é uma parte importante no processo de algumas mulheres, mas o que eu quis tratar em meu vídeo é o sentimento de culpa. Nossa sociedade fomenta essa culpa. Nós a respiramos, e ela vem de todas as direções. Mesmo mulheres que chegam à clínica completamente firmes em sua decisão de realizar um aborto dizem que se sentem culpadas por não se sentirem culpadas. Mesmo tendo 110% de certeza de que essa é a melhor decisão para elas, elas mesmas se pressionam para se sentirem mal com relação a isso. Eu não me sinto mal. (…) Eu pude aprender com a experiência e seguir adiante. E sou grata por poder compartilhar minha história e inspirar outras mulheres a rejeitarem essa culpa.”

 

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Em 2008, a cineasta Thereza Jessoroum lançou o documentário “Fim do silêncio”, com depoimentos de mulheres brasileiras que realizaram abortos e que não puderam contar com o apoio de um Estado que assegure o direito ao aborto legal e seguro. No Uruguai, que descriminalizou e regulamentou o acesso à interrupção da gravidez nas redes pública e privada de saúde em dezembro de 2012, não foi registrada nenhuma morte de mulheres por abortos inseguros nos primeiros seis meses de vigência da nova lei. Enquanto isso, no Brasil, a criminalização não impede a realização do procedimento – estima-se uma média de um milhão de abortos realizados no país a cada ano e que uma em cada cinco brasileiras faça pelo menos um aborto até os 40 anos – e uma brasileira (pobre) morre a cada dois dias em consequência de aborto inseguro. Até quando?