Punhos cerrados: 8 de março é dia de luta

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No meu aniversário de 28 anos, uma pessoa muito querida me presenteou com o livro “Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas. Foi um dos presentes mais incríveis que já recebi. Angélica escreve poemas sobre “a mulher”, aquela que gostariam que fôssemos, e sobre mulheres, aquelas que de fato somos.

Alguns dos poemas de Angélica neste livro são como socos no estômago dados com o útero com que insistem em nos definir. Sofremos violência e morremos porque somos mulheres e temos útero; sofremos violência e morremos porque somos mulheres e não temos útero. Sofrem violência e morrem homens que têm útero. Sofremos violência e morremos porque somos mulheres e temos úteros que não são companhia suficiente quando viajamos com amigas, estando assim “sozinhas” (ou seja, sem um pênis para nos proteger); sofremos violência do Estado e morremos quando não queremos que nossos úteros venham a parir e nos é negado o direito ao aborto legal e seguro; sofremos violência quando o Estado nos abandona durante nossa gravidez e nossos úteros parem bebês microcéfalos – e depois quem nos abandona são os nossos companheiros, tão absolutos com seus pênis que lhes permitem simplesmente seguir a vida como se nada fosse, como se um útero não tivesse parido um bebê que é também deles, como se somente àquele útero correspondesse a responsabilidade por aquela nova vida.

Me encanta meu útero porque nele, se eu quiser, eu posso gestar novas vidas. Me angustia meu útero porque o simples fato de tê-lo faz com que algumas pessoas se sintam no direito de exigir que nele eu geste novas vidas independentemente da minha vontade. Me dana meu útero porque, apesar de tê-lo e justamente porque o tenho, não me é permitido e garantido o direito de decidir por mim mesma o que fazer com ele. Me amaldiçoa meu útero porque ele me confere um privilégio que se transmuta em opressão para as mulheres que não o têm ao mesmo tempo em que me confere uma opressão que se transmuta em privilégio para os homens que não o têm. Me ofende meu útero porque a ele ao longo dos séculos (milênios?) foi conferido um papel determinante no estabelecimento de hierarquias e valores entre pessoas, não só entre as que o têm e as que não o têm, mas entre as que o têm e cujos úteros podem vir a ser úteis e aquelas cujos úteros já não servem mais.

Me maravilha meu útero porque ele também me faz quem eu sou, porque a partir dele me nomearam mulher e também por causa dele me reconheci mulher, para depois entender que ser mulher nada tem a ver com o útero que eu levo dentro de mim.

Mas um útero, diz o poema de Angélica Freitas, é do tamanho de um punho. Um punho cerrado contra aqueles que tentam nos submeter e nos aniquilar porque somos mulheres, com ou sem útero. Um punho cerrado que eu gostaria de enfiar na fuça de cada homem que me assedia, de cada homem que abre a boca pra dizer “deixa eu te explicar”, de cada homem que não ouve o que eu digo, não considera minha opinião ou acha que pode me silenciar porque eu sou mulher, de cada pessoa que coloca a culpa em nós mulheres pelas infinitas violências sexuais e simbólicas que sofremos todos os dias, de cada mulher que diz “mulheres somos nós que temos útero”.

Hoje, 8 de março, assim como todos os dias, é dia de luta. Meu punho está cerrado. E o seu?