Stephen Fry e a banalidade da homo/transfobia

Stephen Fry e a banalidade da homo/transfobia

Stephen Fry e Renata Peron no documentário “Out There”, imagem via YouTube

 

 

Em agosto, o ator e apresentador britânico Stephen Fry publicou uma carta aberta a David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, e ao Comitê Olímpico Internacional pedindo a transferência das Olimpíadas de Inverno de 2014, a serem realizadas na Rússia, para um país que promova os direitos humanos e o respeito à população LGBT. Fry contou sobre seu encontro com o deputado russo Vitaly Milonov: “Eu estive na Rússia, encarei o deputado que introduziu a primeira dessas leis, na cidade de São Petersburgo. Eu olhei bem na cara do homem, e em frente às câmeras, tentei argumentar com ele, debater com ele, fazê-lo entender o que ele estava fazendo. Tudo o que vi refletido em mim foi o que Hannah Arendt chamou de ‘a banalidade do mal’. Um homem estúpido, mas como tantos tiranos, dono de um instinto sobre como explorar um povo desunido através de bodes expiatórios.”

 

O encontro foi parte de uma empreitada que durou mais de dois anos e resultou no especial “Out There” (“Lá fora”), documentário em duas partes produzido e exibido pelo canal britânico BBC na última semana. Fry começa sua jornada em Londres e passa por Uganda, Estados Unidos, Brasil, Rússia e Índia, explorando o impacto da homo/transfobia na vida de pessoas homo e trans e suas famílias, e confrontando as pessoas que promovem o ódio e sustentam uma ferrenha oposição aos direitos civis das pessoas LGBT.

 

 

No Brasil, Fry passou por São Paulo e se emocionou na maior parada gay do mundo (quem nunca?), com o escritor e jornalista João Silvério Trevisan (autor da reportagem “Qual é o crime de Celso Curi?”, reproduzida na seção Vale a Pena Ler de Novo da Samuel n11). O britânico também conversou com a cantora Renata Peron, que perdeu um rim em um ataque transfóbico: um espancamento perpetrado por nove homens entre 18 e 22 anos na Praça da República, na capital paulista. No Rio de Janeiro, Fry encontrou também Angélica Ivo, cujo filho Alexandre foi assassinado aos 14 anos em mais um crime motivado pela homofobia.

 

 

A homo/transfobia vivida cotidiana e dramaticamente por Renata e que tirou a vida de Alexandre é fomentada por pessoas como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), também entrevistado por Fry e responsável pelo momento “vergonha nacional” no documentário. “Não existe homofobia no Brasil”, diz Bolsonaro. Ele justifica a sua cruzada anti-LGBT dizendo que é uma “questão de ‘normalidade'”. O britânico não deixa por menos: “Interessante você usar a palavra ‘normal’. Eu me interesso muito por zoologia, e há 480 espécies de animais que apresentam comportamento homossexual, mas apenas uma espécie de animal na Terra que apresenta comportamento homofóbico. Então, o que é ‘normal’?”

 

 

“Out There” mostra que a homo/transfobia pode ser exclusividade da espécie humana, mas não é exclusividade de um único país ou cultura. Infelizmente, o medo e o ódio de homossexuais e pessoas trans figura em diferentes contextos nacionais, sociais e culturais. O cenário mundial não é dos mais animadores, mas ao menos o documentário de Fry mostra que pessoas homofóbicas, em qualquer lugar do mundo, são igualmente nocivas e patéticas e devem ser confrontadas em sua descabida cruzada anti-LGBT. E que no mundo todo existe muita gente disposta a viver e a lutar para que todas as pessoas possam ser quem são. Tamo junto.