Vote numa feminista

Vote numa feminista

Quando foi diretora da edição portuguesa da revista Marie Claire, a escritora portuguesa Inês Pedrosa estabeleceu duas regras: “Era proibido perguntar às entrevistadas sobre compatibilidade entre carreira, vida pessoal e filhos e era obrigatório perguntar aos homens sobre o mesmo tema”. Homens também têm filhos, carreira e vida pessoal a serem conciliadas, mas em entrevistas esse tipo de pergunta é feito somente a mulheres. A escritora quis sublinhar essa diferença no tratamento que grande parte da imprensa dedica a homens e mulheres em posições de poder, e o fez ela mesma quando entrevistou o político Jorge Sampaio durante sua candidatura à presidência de Portugal. Pedrosa fez a fatídica pergunta sobre filhos, carreira e vida pessoal ao candidato, e também o questionou sobre suas habilidades culinárias, seus pratos preferidos e se ele era a favor da interrupção voluntária da gravidez. Segundo Inês, Sampaio teria ficado atônito com as perguntas e reclamado que estavam perdendo tempo, que poderia ser melhor empregado na discussão de suas ideias para a presidência. Inês teria respondido: “É precisamente o que acontece com as mulheres.”

 

O desserviço de certos veículos de mídia à luta das mulheres por representação política foi mais uma vez demonstrado por uma deplorável galeria de fotos publicada pelo UOL na última semana, elencando “as mais belas candidatas das eleições em 2014 no Brasil”. As candidatas Isa Penna (deputada estadual, PSOL-SP) e Mácia Teixeira (deputada federal, PSTU-DF), citadas na lista, protestaram publicamente contra esse enésimo exemplo de jornalismo punheteiro. Mácia Teixeira ressaltou como esse tipo de matéria reproduz a ideia de que mulheres têm valor a partir da apreciação de sua beleza pelos homens, e reforça a exclusão das mulheres da política: “Este texto publicado no site da uol, juntamente como referido ranking de beleza, reproduz e naturaliza o papel destinado as mulheres na esfera política da sociedade. A exaltação da beleza das candidatas em detrimento do programa político que estão defendendo é o reflexo da ideologia machista que aponta que as mulheres, em qualquer espaço, têm como função agradar os homens e satisfazê-los sexualmente. Tal lógica é a mesma reproduzida pela mídia cotidianamente quando atrela a imagem do corpo feminino erotizado a outros produtos como cervejas, carros, motos, sandálias, etc.” Isa Penna destacou que é justamente a atuação política das mulheres que pode combater o machismo que se expressa também na grande mídia em matérias como a publicada pelo UOL. “Esse tipo de matéria só demonstra mais uma vez como é essencial que, nós mulheres, ocupemos cada vez mais os lugares públicos e políticos da nossa sociedade, para demonstrarmos para este tipo de pessoas que podemos sim lutar pelos nossos direitos, que temos que ter o protagonismo na tomada de decisões que envolvam toda nossa comunidade e que nossas ideias devem ser levadas em conta. Nossa participação na sociedade não pode ser resumida à de objeto sexual, e iremos enfrentar a mídia e grandes interesses para provar isso”, escreveu Penna.

 

Mulher bonita é a que luta. Imagem via 

 

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, há quase 25 mil candidatas e candidatos às eleições desse ano; 7.407 são mulheres, apenas 29,73% do total. Mesmo que as candidaturas de mulheres nessas eleições tenham aumentado 46,5% com relação às eleições de 2010, se pensarmos que as mulheres são 51% da população total do Brasil, ainda é muito pouco. Com a intenção de incentivar a representação política das mulheres e dar ênfase a candidatas a deputadas estaduais e federais comprometidas com os direitos das mulheres, como o direito a decidir sobre o próprio corpo e outras importantes pautas feministas e de direitos humanos como o combate ao racismo, à homofobia e à transfobia, a feminista paranaense Sharon Caleffi criou a página “Vote numa feminista”. “O objetivo é aumentar a visibilidade das candidatas feministas, principalmente porque em muitos casos os partidos não têm essa visibilidade ou não apoiam as candidaturas das mulheres de forma efetiva. Levar a ideia de votar em uma mulher feminista para que ela lute pela efetivação dos direitos das mulheres nos espaços de poder às mulheres que não conhecem o feminismo. E, sim, tentar, quem sabe, ajudar a eleger alguma candidata. Toda mulher que se elege é um exemplo para que mais mulheres entrem na política e mudem o jeito de governar”, acredita Caleffi.

 

Imagem via Vote numa feminista

 

Apesar da necessidade de se apoiar candidaturas de mulheres para aumentar a representação delas na política, ser mulher por si só não significa alinhamento com pautas feministas e com os direitos das mulheres. A associação com o feminismo é uma característica quase exclusiva de mulheres candidatas por partidos de esquerda. Essas candidaturas são maioria absoluta na página “Vote numa feminista”, que no momento tem pouco mais de 11,5 mil curtidas e apresenta listas divididas por unidade da federação. Caleffi destaca a importância de colocar o comprometimento das candidatas com o feminismo em primeiro plano, já que é esse o atributo que implicará na dedicação das futuras deputadas às causas feministas: “As feministas, apesar das diferenças de opiniões e vertentes, compreendem que é necessário, sim, ajudar as mulheres a quebrar e transpor as barreiras impostas pelo patriarcado e pelo machismo. É preciso que o Estado atue no sentido de garantir direitos às mulheres – não só escrevê-los em papel, e de levar essa garantia de direitos onde as mulheres estão – com recursos: delegacias, hospitais, profissionais especializados, com formação política. É papel do Estado diminuir as diferenças históricas de oportunidades que homens e mulheres tiveram e ainda tem no Brasil.”

 

Entre as candidatas à presidência, Luciana Genro (PSOL) é a única que se posiciona a favor da legalização do aborto e da luta contra a homofobia. Essas duas questões não são citadas no programa de Marina Silva (PSB), e são o grande calcanhar de Aquiles do governo de Dilma Rousseff (PT) entre feministas e outras pessoas militantes pelos direitos das pessoas LGBTQ. Entretanto, em reportagem de Jarid Arraes para a revista Fórum, algumas feministas sustentam que o governo Dilma tenha fortalecido as mulheres brasileiras através da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, com avanços no atendimento a mulheres vítimas de violência e a contemplação de mulheres em programas como o Bolsa Família, em que elas são maioria absoluta entre as pessoas beneficiadas.

 

A bancada fundamentalista religiosa no Congresso, porém, segue sendo a maior ameaça aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTQ. Em entrevista ao site Universo AA, o deputado federal e candidato à reeleição Jean Wyllys (PSOL-RJ) comenta que a religião não seria um problema se os parlamentares observassem o princípio da laicidade do Estado. “Não haveria problema e eu não enxergaria esses candidatos como uma ameaça aos direitos das minorias se eles mantivessem uma relação privada com a sua fé. O problema é que os candidatos evangélicos misturam os dogmas da religião com seus cargos públicos, ou seja, o grande problema é ser fundamentalista, é colocar sua função de pastor acima de seus deveres públicos e comprometer assim a laicidade do Estado”, acredita o deputado. Somente a bancada evangélica na Câmara Federal conta hoje com 66 parlamentares, número que deve aumentar após as eleições de 2014: o número de pastores candidatos cresceu 40%, de 193 em 2010 para 270 candidatos que se declararam pastores ao registrar suas candidaturas no TSE. Além deles, há também 32 bispos e 16 padres candidatos nessas eleições. “Esse aumento me preocupa, pois os candidatos querem utilizar a estrutura pública para fazer valer seus dogmas religiosos, prejudicando os direitos da comunidade LGBT, das religiões minoritárias e até mesmo os da mulher, de ser livre para fazer o que quiser com próprio corpo”, observou Wyllys.

 

Mais do que nunca na história desse país, votar numa feminista – melhor, em várias feministas – no próximo 05 de outubro é crucial para assegurar os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQ, além fortalecer o combate à homofobia, à transfobia, ao racismo e à violência de gênero. E também para frear o sequestro do Estado por forças fundamentalistas, que estão trabalhando com afinco exemplar para impor as trevas nas vidas de todas as pessoas brasileiras. Como bem escreveram essa semana, nós vagabundas, pederastas, sapatonas e travestis brasileiras temos mais é que nos unir, porque o lado de lá já demonstrou estar bem juntinho e determinado a nos amordaçar e acorrentar com os grilhões do fundamentalismo religioso.